sábado, 20 de agosto de 2016

Berço de Isaquias, Ubaitaba quer se tornar polo nacional de canoagem

Atletas da Associação Cacaueira da Canoagem (Foto:Marcus Leoni/Folhapress).
Antes das cidades, os índios já deslizavam o rio abaixo em suas canoas cruzando as aldeias do sul da Bahia. De Ubatã, que em tupi-guarani quer dizer "canoa forte" seguiam para Ubaitaba, a "cidade das canoas", e desembocavam no mar em Itacaré, o "jacaré de pedra". Estas três cidades cresceram ao longo do rio de Contas e formam um cinturão que ajudou a formar três gerações de atletas que empilham medalhas de campeonatos sul-americanos de canoagem. 

Mas foi preciso que o filho da terra Isaquias Queiroz fizesse história ao conquistar três medalhas em uma mesma edição da Olimpíada para que a região cravasse seu nome no mapa do esporte. Ubaitaba sonha alto e quer se tornar o principal polo de treinamento de canoagem do país. O caminho até lá, contudo, promete não ser nada fácil. A falta de estrutura contrasta com os resultados obtidos pelos atletas da região.

Clebson Ribeiro, 20, e Caíque dos Santos, 24, navegam em suas canoas, desviando das ilhas fluviais e baronesas –plantas que se alimentam da matéria orgânica–, que se acumulam nas margens. Ambos já venceram campeonatos e Clebson chegou a integrar a seleção brasileira em 2014. Com ensino médio concluído e sem emprego, Caíque se divide entre os treinos e o trabalho de mototáxi. 

Na beira do rio, aos berros, a treinadora Camila Lima, presidente da Associação Cacaueira de Canoagem, tenta orientar os garotos. A associação funciona numa casa na beira do rio, onde antes funcionava um bar. O local foi, literalmente, invadido pelos atletas, que buscavam espaço para guardar as canoas. Após a invasão, a prefeitura comprou o prédio e a sede foi regularizada. Ao todo, a associação tem cerca de 50 embarcações, mas só três feitas de fibra de carbono, material usado em competições profissionais.

Uma pequena sala com equipamentos enferrujados é usada como academia. "Academia não, isso aqui é um ferro-velho", diz Camila. Mesmo com todas as dificuldades, eles ainda têm sorte de estarem com as portas abertas. Em Ubatã, a associação de canoagem local, que revelou Erlon de Souza –medalha de prata junto com Isaquias no C2 1.000 m–, fechou há mais de cinco anos. 

Por três anos, meninos como Erlon percorriam 54 quilômetros entre Ubatã e Ubaitaba todos os dias para conseguir treinar. No fim do dia, percorriam a mesma distância de ônibus para voltar. "Estamos desassistidos há 20 anos, sempre dando resultados para o esporte brasileiro", afirma Figueiroa Conceição, primeiro treinador de Isaquias Queiroz e hoje técnico da seleção brasileira feminina de canoagem. A equipe que ele treina é um reflexo deste cenário. 

Dezenove das 20 atletas são do sul da Bahia, mas todos têm que se deslocar até Curitiba, a 2.100 km, para treinar. Um dos pioneiros da canoagem na região e representante do Brasil em Barcelona-1992, Jefferson Lacerda diz que as medalhas de Isaquias e Erlon criaram expectativa entre os moradores da região. Mas, resignado, não se mostra confiante na possível instalação de uma raia olímpica no rio de Contas. "Se vier para a cidade 10% do que o povo pensa que vai vir, já será excelente. Mas se não vier, tudo bem, nosso trabalho vai continuar", diz. 

'ISAQUIASMANIA'

"Somos todos Isaquias", "Isaquias, você é o nosso menino de ouro", "Isaquias, essa medalha já é nossa". Ele não é candidato a prefeito, mas seu nome está espalhado em dezenas de faixas penduradas pela cidade. No mês em que seu filho mais pródigo entrou para a história ao conquistar três medalhas olímpicas, a pequena Ubaitaba vive um clima de "isaquiasmania". Mirando-se no exemplo de Isaquias e Erlon, crianças e jovens da região buscam na canoagem uma oportunidade de melhorar de vida.

"A gente passa no rio e vê as crianças remando. Eu digo, vai em frente, se esforcem neste rio como fez Isaquias que vocês vão conseguir vencer", diz Dilma Queiroz, mãe do multimedalhista. Ela recebeu a Folha horas depois de chegar do Rio, quando viajou de avião e assistiu ao filho numa competição pela primeira vez. Ao chegar em Ubaitaba, recebeu abraços dos vizinhos e até de moradores da cidade que só a conheciam do período trabalhava como zeladora na rodoviária da cidade.

Na sede da Associação Cacaueira de Canoagem, onde há pouco mais de um ano sobravam vagas para novos canoístas, agora amontoam-se dezenas na hora dos treinos. Entre brincadeiras, imitam o medalhista. Com um dos joelhos no chão e uma vassoura nas mãos, simulam as remadas de Isaquias.

O pequeno Emerson dos Santos Aguiar, 11, treina há quase dois anos e tem em Isaquias o seu maior exemplo. "Quero ser campeão igual a ele", diz o garoto, minutos depois de deixar o rio carregando sua canoa nos ombros. O ídolo deve chegar à cidade no próximo sábado (27). Dispensou o desfile em carro aberto, mas fez questão da festa com direito a show de "arrocha", um dos seus estilos de música favoritos.

1 comentários:

gilvan barbosa disse...

é uma pena que esses atletas,não tem o mesmo tratamentos que os jogadores da seleção brasileira tem,em relação ao premio em dinheiro que os jogadores ganharam por conseguir uma medalha de ouro,que para mim não deveriam ganhar nada além dos seus salários bilionários,uma grande diferencia de outros tipos de esporte,mais isso é Brasil,tomaram que o nosso ISAQUIAS,e os outros atletas passam ser mas assistido pelo os poderes publico.

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