quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Caranguejo: Personalidade Folclórica na região

'Caranguejo' viveu muitos anos em Ibirataia e é bastante conhecido em Ipiaú.
Você sabe onde eu nasci/Você sabe onde eu me perco/ Você não sabe da missa o terço”. O verso da letra da música “Se o Amor Vier”, de Fagner, também serve como referência à existência de uma das figuras mais exóticas da região.

Nascido em Ibirataia, residindo a muitos anos em Jequié, com endereço no mangue, Caranguejo é puro folclore. Arrasta-se pela vida em resistência, tem muito atrevimento, história e estórias...

A deficiência física lhe proporcionou a semelhança com o dito crustáceo e rendeu-lhe o apelido famoso.

Nas velhas micaretas de Ipiaú, Caranguejo vendia mascaras, serpentinas, confetes, pó brilhante, purpurina e outros artigos momescos. Se hospedava no Hotel de Dona Isabel, na Rua Dois de Julho, e quando o Trio Elétrico passava não resistia ao embalo.

Lá de baixo tinha olhar privilegiado às torneadas pernas das beldades ipiauenses que seguiam assanhadas no cortejo. A cena se repetia em outras folias do interior baiano.

Foi na efervescência cultural da Jequié dos anos 70 que Caranguejo revelou seu talento artístico, sua militância política, sua rebeldia por todas as causas.

Marcava ponto no Belvedere, Cine Auditório e no Maracujá. Hoje está lá pros lados da Cidade Nova, em um ponto de apoio de ônibus interestaduais.

O criativo humorista Carlos Éden registrou o visual de Caranguejo em uma das suas famosas caricaturas. 

Nas mostras de som, programas de calouros, Caranguejo exibia repertório de roqueiro e um visual adequado àqueles tempos rebeldes. Interpretava os Beatles e Rolling Stones em um inglês só seu. Em caranguês, por melhor dizer. A plateia não resistia aos embalos do tremendão, aplaudia, e, só de sacanagem, pedia bis.

Um dia encontraram Caranguejo entocado no mangue do Maracujá. Estava todo enfaixado, parecendo uma múmia. Perguntaram-lhe o motivo daquilo e ele disse que foi resultado de uma corrida de cadeiras de rodas com outro deficiente.

No meio da competição, descendo a ladeira da Catedral de Santo Antônio em direção à Avenida Rio Branco, sua cadeira capotou e as fraturas foram inevitáveis.

Bravateiro inveterado, Caranguejo gosta de narrar suas farrombas nos bregas de Mira Bracim, Erdira e outras cafetinas que entraram na história da Cidade Sol. Sempre que pode reafirma a fama de maluco beleza, chincheiro das antigas.

Contam que uma noite deram um baculêjo num cabaré do Maracujá e Caranguejo não viu outra alternativa a não ser pular uma janela que dava para uma ribanceira.

Uns dizem que no salto sua camisa se embaraçou em uma árvore e ele ficou pendurado, balançando as perninhas e implorando para que não lhe levassem preso. Outros garantem que rolou pirambeira abaixo e se arranhou todo.

Pensando em colher mais informações a respeito desse irreverente personagem, pedi que um policial amigo meu fizesse um contato com ele. Carangueijo estava lá na Cidade Nova quando a viatura chegou. Ao ouvir do comandante da guarnição que estava em sua procura, ele não quis conversa.
O pinote foi imediato, em alta velocidade. No cavalo doido mesmo. Em segundos já estava bem longe, na toca, no melhor estilo de que um homem prevenido vale por dois. Frustrada a missão, os policiais deram boas gargalhadas.

É como na música de Fagner que se Garanguejo conhece, decerto está cantando: Consegui não me afogar/Enganei até a morte/Hoje estou bem/ Hoje estou bem mais forte”. Caranguejo sobrevive, aderiu ao Manguebeat, resiste em artes e manhas. *GIRO/José Américo Castro

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