sexta-feira, 30 de junho de 2017

Jornalista lança mapeamento de escritoras negras da Bahia

Calila das Mercês é jornalista e pesquisadora em literatura (Foto: Jemima Bracho)
No mês em que se comemora o Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana (25 de julho), a ausência de representantes negras nos espaços de poder ainda é algo alarmante, sobretudo em um dos espaços mais importantes de construção social — a literatura. Segundo o estudo “A personagem do romance brasileiro contemporâneo”, da pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB), Regina Dalcastagnè, dos autores que publicaram num período de 14 anos, 93,9% eram brancos e 72,7% homens, sendo que 47,3% moravam no Rio de Janeiro e 21,2%, em São Paulo. Buscando evidenciar a arte de mulheres negras baianas e em reforço à Década Internacional de Afrodescendentes, decretada pela ONU entre 2015 e 2024, a escritora Calila das Mercês, mulher negra, baiana, jornalista e pesquisadora em literatura, lança o projeto “Escritoras Negras da Bahia”. Reunindo o trabalho de poetas, contistas, romancistas e artistas literárias em geral, a iniciativa traz um mapeamento e diagnóstico das escritoras negras da Bahia e dá acesso a grupos minoritários à arte e literatura. "A arte literária sempre esteve presente na minha vida e, durante minha infância e adolescência, sempre senti falta de mulheres que me representassem no campo literário. Na Bahia, um estado em que a população negra é maioria, prestigiamos grandes escritores homens, mas temos também grandes escritoras mulheres negras, e é sensato termos acesso ao que elas retratam por meio de olhares e falas plurais. Este projeto, portanto, busca criar um espaço em que a comunidade negra possa se sentir mais representada e leitores, em geral, possam ter acesso à pluralidade de representações e de autoras baianas que fazem arte literária de qualidade", explicou Calila.

O projeto contempla três diferentes produtos. O primeiro deles é o website www.escritorasnegras.com.br, que será lançado no dia 7 de julho, trazendo um mapeamento e diagnóstico das escritoras negras da Bahia, com acesso às redes sociais e blogs dos seus trabalhos, além de um perfil com histórico sobre a arte literária e atuações. “A ideia do site é fomentar a produção literária na Bahia, porque quem é da área sabe a dificuldade que é viver de literatura, principalmente para a mulher negra, que até como personagem é excluída dos livros”, explicou Calila. 

Além do site, o “Escritoras Negras da Bahia” promoverá, entre 7 e 20 de julho, um ciclo de oficinas voltadas a mulheres de comunidades afro-indígenas, nas cidades de Alcobaça, Caravelas e Prado (Cumuruxatiba), Extremo Sul da Bahia, e duas palestras – uma na Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Campus de Teixeira de Freitas, e outra no Fórum de Cultura, em Caravelas. Ao todo serão mobilizadas, 180 mulheres para tratar de temas como literatura, cinema, tecnologia e resistência, com as presenças das pesquisadoras Kênia Freitas, doutora em Comunicação e Cultura da UFRJ, e Raquel Galvão, doutoranda em Teoria e História Literária da Unicamp.

O último produto do projeto é um e-book bilingue (Português e Inglês), com textos acadêmico-culturais relacionados à negritude e à autoria negra, perfis de escritoras negras e intervenções artísticas na Bahia. “O diferencial do projeto é o ineditismo e também o alcance que ele terá, não apenas para potencializar uma única escritora, mas para fortalecer um coletivo de mulheres negras que fazem arte literária”, concluiu Calila.

Sobre a pesquisadora

Nascida em 1989, em Conceição do Jacuípe, na Bahia, Calila das Mercês cresceu tendo como referência sua avó, dona Carlinda da Conceição — mulher negra que nasceu em 1922, em São Bento, viveu em região quilombola, no Recôncavo da Bahia, e, posteriormente, em Salvador.

Ao longo da sua trajetória, a jornalista foi conhecendo nomes que a ajudaram a enxergar o mundo de outra forma, como a escritora de “Quarto de Despejo”, Carolina Maria de Jesus, e a também mineira Conceição Evaristo, da qual pegou emprestado a “Escrevivência”, para nomear uma das oficinas do projeto. Também conheceu as escritoras baianas Lívia Natália (Salvador), Mãe Stella de Oxóssi (Salvador), Rita Santana (Ilhéus), Renailda Cazumbá (Feira de Santana), Mel Adún (Salvador), Vânia Melo (Salvador) e Celeste Pacheco (Brumado), que estão no primeiro mapeamento realizado pela pesquisadora, o Escritoras Mulheres da Bahia (www.escritorasdabahia.com.br), de onde tirou a inspiração para o estudo atual. 

Hoje, graças à bagagem que adquiriu, Calila carrega vasto currículo. É doutoranda em Literatura na Universidade de Brasília (UnB), mestre em Literatura e Diversidade Cultural pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e bacharel em Comunicação social com habilitação em Jornalismo pela Universidade do Recôncavo da Bahia (UFRB). 

Idealizadora, roteirista e codiretora do curta-metragem "Antônio, o menino que queria ser Castro Alves", recebeu o Prêmio Pesquisa Literária da Fundação Biblioteca Nacional 2015 pela dissertação de mestrado que deu origem ao filme. Pelo projeto “Escritoras Negras da Bahia”, recebeu o prêmio Antonieta de Barros - Jovens Comunicadores Negros e Negras pela Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial do Ministério da Justiça e Cidadania. 

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