terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Personalidade ipiauense: Mestre Braz é referência na arte da mecânica

Aos 88 anos de idade, Mestre Braz, diariamente, mestre Braz marca presença na oficina (Foto: Giro Ipiaú)
Fala mansa, jeitão maneiro de quem não tem pressa, cheio de gentileza, muito educado, com excelente memória. Aos 88 anos de idade, o mecânico Braz Tito da Cruz preserva esses requisitos e se considera um homem feliz. Diz ter cumprido a missão que Deus lhe deu e encontrado em Ipiaú os melhores dias da sua existência. Ele chegou nesta cidade em 1937, proveniente de Taperoá, baixo sul do estado, onde nasceu. Seu pai era o pedreiro Joel Tito da Luz e a mãe se chamava Helena Damiana da Conceição. Um erro de registro, no cartório, tirou do seu sobrenome a palavra  “Luz”, substituindo-a por “ Cruz”, a qual carrega até hoje e transmitiu aos seus descendentes. Com sua esposa  Railda Campos Sales, gerou cinco filhos: Braz Filho, José Joel (Nuna), Júlio César (que é o cantor e compositor Tito da Cruz), Antonio e Anibal.  

Foi na região onde hoje é a Praça do Cinquentenário que seu Joel construiu a casa onde criou Braz e os demais da prole. No ano de 1948, Braz aprendeu a dirigir com um motorista apelidado de “Capa Égua”. Depois disso começou a se interessar pela mecânica. Na cidade de Governador Valadares, em Minas Gerais, ingressou na “Oficina Baiana”, onde, num período de cinco anos (de 1950 a 1955), conheceu os segredos da profissão. Tornou-se mestre, especialista em motores das marcas Williams, Chevrolet e Ford.

Nas eleições de 1955 o mineiro Juscelino Kubitschek de Oliveira foi eleito presidente do Brasil e apresentou um plano de metas, cujo lema era “Cinquenta anos em Cinco”. JK pretendia em apenas cinco de governo realizar ações correspondentes a 50 anos de desenvolvimento econômico. Mestre Braz não se deixou seduzir por tanto entusiasmo e fez um caminho contrário ao de tantos outros nordestinos que se deslocavam para a região onde estava sendo construída a nova capital federal, Brasília. Retornou a Ipiaú e abriu sua própria oficina. Ela foi instalada numa garagem cedida pelo fazendeiro Quincas Azevedo, na Rua Rio Branco, centro da cidade. Assim passou a concorrer com mestre Alírio, Arlito Santana, Raimundo Nonato e outros mecânicos de grande competência. 
Oficina criada por Braz completou 60 anos de existência (Foto: Giro Ipiaú)
A labuta diária permitiu que mestre Braz juntasse algum dinheiro e comprasse um galpão, pertencente ao concorrente Arlito Santana. No imóvel, localizado  na Avenida Getúlio Vargas passou a funcionar a “Oficina São Braz” que  completou 60 anos de existência e bons serviços prestados a Ipiaú. O negocio prosperou, exigindo ampliação do espaço aonde chegaram a trabalhar mais de 20 pessoas, numa mesma turma. A boa qualidade dos serviços de mecânica, chaparia, montagem, desmontagem e pintura automotiva fizeram da oficina uma referencia no segmento. 

Atualmente são os filhos do proprietário que atendem a clientela. Diariamente mestre Braz marca presença na oficina, transmitindo sua experiência, recebendo velhos amigos, curtindo o ambiente que tanto lhe faz bem. Dentre os inúmeros discípulos que ele formou estão os mecânicos Manoel Arara, Brazinho (seu filho mais velho), Valdivino e Jai.

O professor e pesquisador Albione Souza Silva, fonte de algumas informações deste texto, lembra que a complexidade dos serviços em carros das novas linhas de montagem, tem feito com que a clientela recorra às oficinas autorizadas. Elas ganham espaço empurrando as tradicionais para a via da extinção. Se fosse mais jovem, Braz Tito da Cruz entraria nessa competição. Não faz muito tempo ele aceitou um desafio e montou, num prazo de 15 dias, dois motores da nova geração dos automóveis  importados: um da Renault e o outro da Mitsubishi. Assim provou a sua competência e mostrou porque lhe chamam de Mestre. (Giro/José Américo Castro).