Personalidades Folclóricas de Ipiaú: João Guardinha


Corpo franzino, baixa estatura, uniforme engomado, quepe
vistoso, coldre vazio, posição de sentido. A velha fotografia revela o
personagem nos seus melhores dias. A cena foi registrada nos tempos do fusca,
anos 60, 70 talvez. Ipiaú ainda colhendo os louros da gloria de ter sido
escolhido município Modelo da Bahia. Natural de Santo Antônio de Jesus, João Gomes de Sá, um
sujeito extremamente pacifico, sonhava com a carreira militar e sentiu-se
realizado quando o ex prefeito Juca Muniz, nos idos de 1955, lhe nomeou Guarda
Municipal. Vestiu a farda, vigiou repartições, tornou-se o valente João
Guardinha, calo da meninada, terror da bicharada (jegues, porcos, cachorros) que
invadiam os canteiros do jardim da Praça Rui Barbosa. Qualquer semelhança com o
lendário Soldadinho de Chumbo não é mera coincidência. João entrou em cena como coadjuvante da antiga Filarmônica
Alberto Pinto. Não na posição de músico, mas na condição de carregador da
maleta das partituras. Ia todo compenetrado na rabada da fila, com sua fardinha
de general da banda, patente que lhe foi dada pelo regente Mestre Lôla, seu
padrinho e conterrâneo. 
Sempre de prontidão, batendo continência para a autoridade
mais próxima, foi assim que João sentou praça na Delegacia. Fez papel  de Office Boy, cumprindo mandados, transmitindo
recados, realizando seu sonho de viver na caserna. Vez por outra auxiliava na
carceragem ou acompanhava a guarnição em alguma operação de baixíssimo ou
nenhum risco. Os relevantes serviços prestados à comunidade lhe conduziram ao
Departamento Municipal de Transito. Apito na boca, caneta na mão, moral elevada, o guardinha não
titubeava: aplicava multas, dava broncas que nem sempre eram levadas a sério, solicitava
“particulares”, conversas ao pé do ouvido. Num certo dia intimou o prefeito
Euclides Neto a “um particular”, sobre o pretexto de que o mesmo estava
multado. O celebre escritor e advogado questionou a suposta infração e João
Guardinha mansamente explicou: – Foi nada não doutor, apenas quero que o senhor
me arranje o trocadinho do charuto”. Por mais de 50 anos João Guardinha fumou
charutos que  comprava na venda de Maria
do Fumo, na Rua do Sapo. 
Em toda sua existência de Guarda Municipal, João disparou um
único tiro. Na mira estava um cachorro que lhe atacou em plena via pública. “Desse
episódio ele lembrava com bravura: – Saquei da pistola 22 e detonei”. Depois
concluía conformado: Errei o alvo e o bicho saiu correndo assustado”.

Quando João Guardinha solicitava um particular, o assunto
era sempre “o trocadinho” do charuto. Fatura consumada, sentava na porta da sua
casa, na Rua da Banca, e dava boas baforadas, com pose de coronel reformado.
(Giro/José Américo Castro)