Parque Ouro Verde: uma companhia que ficou na história de Ipiaú e região

*Por José Américo Castro
Fotos: Arquivo/José Américo Castro
Está na lembrança de tantas e tantas gerações que nos anos 50, 60, 70, tiveram o prazer de desfrutar das suas diversões. Não tinha rodas-gigantes, twistter, playgroud e outros brinquedos sofisticados dos tempos atuais, mas no imaginário daqueles jovens era muito mais que extraordinário. Fantástico. A inesquecível companhia mambembe iniciou o show da sua vida na década de 1950, com o luminoso nome de Estrela do Norte. Clareava os terrenos baldios das pequenas cidades da Bahia e tinha como roteiro a rica região cacaueira, embora fizesse incursões no baixo sul, e em algumas localidades do sudoeste. Tempos depois passou a ser denominado de Ouro Verde, tornando-se o mais feliz empreendimento de um homem que o povo chamava de “Anjo”. O apelido decorre de Ângelo,  nome de batismo daquele importante cidadão que em sinal de respeito e reconhecimento à sua habilidade empresarial ganhou, das pessoas que trabalhavam com ele  o titulo de Mestre.
Sobrinha Gigante era uma das atrações do Parque. 
Natural do município de Entre Rios, no litoral norte do estado, Ângelo Nunes dos Santos, o Mestre Anjo aprendeu a profissão de ferreiro e talvez tenha sido na labuta diária com o fole, a bigorna e os martelos que ele forjou a ideia de produzir os brinquedos da empresa que lhe deu celebridade. Os barquinhos, as sombrinhas (grande e pequena), a barca de Noé, o carrossel rudimentar, faziam festa aonde chegavam. No rosto dos seus usuários estampava-se alegria contagiante. Os olhinhos infantis brilhavam, mirando aquele encanto. Em movimento de pendulo, com tração humana, os barquinhos eram um dos equipamentos mais disputados. Se as duas pessoas que puxavam as cordas tivessem força muscular suficiente para impulsioná-los cada vez mais alto, eles imprimiam grande velocidade. Quando chegavam no topo parecia que o barco ia emborcar. Desciam em queda livre, provocando arrepios nos seus usuários. Nessas embarcações tinham assentos onde os navegantes se acomodavam durante as aventuras nos mares da imaginação.

 Contorções Espetaculares

A Barca de Noé (não lhe chamavam de arca) era pesadona e comportava um número maior de pessoas. Na tripulação estavam os meninos pequenos com os pais ou babás. Seu movimento assemelhava-se ao dos barquinhos, embora mais lento e seguro. Adolescentes e adultos se arriscavam na “Sombrinha Grande”. À proporção que ela adquiria velocidade, circulava mais alto. Os mais corajosos se arriscavam em contorções espetaculares para pegar a cadeira da frente e impulsioná-las. Assim davam os famosos balões. Gritos frenéticos, misto de prazer e pânico... Muitos saiam completamente tontos. Nenhum dos equipamentos tinha cinto de segurança, apenas uma fina barra de ferro dava esta sensação. O médico Talma Reis Filho conta que certa vez, quando o parque ainda se chamava Estrela do Norte e esteve armado no terreno onde hoje é Shopping Liberdade, uma das cadeiras desprendeu da “Sombrinha Grande” e, com o ocupante a bordo, foi cair na garagem da casa de seu pai, o advogado Talma Reis, na Rua Castro Alves. Felizmente nenhum dano foi verificado no repentino pouso.

Stands de tiro ao alvo, roletas, jogo da argolinha e quermesse também figuravam entre as atrações do parque. Até um brinquedo chamado “candomblé elétrico", de vez em quando, era agregado à companhia. Algumas roletas estampavam escudos dos times de futebol e contavam com a destreza dos "crupiêrs" Vavá e Véi bilheteiro. Teve um adolescente, fascinado pelo Parque Ouro Verde, mas sem qualquer recurso financeiro, que não resistiu a tentação e praticou um furto na Padaria de seu Zezito, na Rua Alfredo Brito, e depois  gastou todo o dinheiro naqueles brinquedos. Comprava talões de bilhetes, distribuía com seus amigos, passava a noite curtindo nos barquinhos e na sombrinha grande. Tanta euforia lhe denunciou e isentou um inocente padeiro que estava preso sob a acusação de ter praticado o furto.

Página Musical

Bocas de alto falante emitiam a trilha sonora, constituída por sucessos da época. No tempo do Estrela do Norte o hit mais tocado era “Boneca Cobiçada”, da dupla Milionário e José Rico. Já no Parque Ouro Verde o que mais se ouvia era a canção... “Não se Vá”, de Jane e Herondy. No Studio pilhas de discos de vinil ficavam disponíveis para que o locutor atendesse aos pedidos das famosas “páginas musicais”, dedicatórias com mensagens de amor, paixão, amizade e até sacanagem, de alguém para alguém que estava presente no parque. Pagava-se certa quantia por cada dedicatória. Nas dedicatórias mais corriqueiras diziam: -Fulana (o), esta página musical é oferecida pra você como prova de muito amor e carinho pelo seu (ou sua) apaixonado (a) namorado (a). E  começava a tocar a música. Às vezes tinha gente que só de “sacanagem”, mandava tocar “Eu não sou cachorro não”, de Waldick Soriano, ou “Saia do Meu Caminho”, de Carlos Alexandre. Muitos namoros e casamentos começaram e terminaram com aquelas paginas musicais.

O saudoso locutor Zezito Amaral iniciou sua profissão no Parque Estrela do Norte, em Ubaitaba. No Parque Ouro Verde trabalharam os locutores Júlio Souza, atualmente técnico de som da Câmara Municipal de Ipiaú, e Souza Andrade, hoje radialista e blogueiro na cidade de Jequié. Muitos outros emprestaram suas vozes para o empreendimento de Mestre Anjo.

Mestre Anjo

O Parque Ouro Verde esteve instalado em diversos terrenos baldios de Ipiaú, mas a partir de 1973, quando Mestre Anjo comprou e aterrou uma área alagadiça no atual espaço da Praça do Cinquentenário, passou a ter endereço por ali. Permanecia neste cidade por até dois meses seguidos. A empresa chegou a empregar mais de 30 pessoas. Mestre Anjo chamava de “Cavalo”, seus empregados e amigos. Era uma maneira de dizer que se tratava de homens fortes, resistentes e leais. Ângelo Nunes dos Santos, o fundador do Parque Estrela do Norte que depois se chamou Ouro Verde, mantendo-se brilhante por quase três décadas, morreu em Ipiaú, com a idade de 81 anos, em maio de 1999. Era um homem de fala mansa, muito educado, com especial tino empresarial. Deixou uma geração de cinco filhos ( Maria José, Vera Lucia, Maria do Carmo, Ângela Maria e José Ângelo “Fio”), 13 netos e 13 bisnetos. Sua mulher se chamava Julieta Nunes dos Santos. A Estrela do Norte, o Ouro Verde, são preciosidades do tesouro das nossas boas lembranças. Estão na história de Ipiaú e de tantos outros municípios baianos. (Giro/José Américo Castro).