Personalidade Folclórica de Ipiaú – Seu Davi do ‘Bumba Boi’


Seu Davi ao lado de Eulina, sua esposa (Foto: Arquivo Familiar)
Pisa na linha levanta o boi, levanta meu boi do chão… O refrão da toada era a senha para o Boi Estrela entrar em cena e mostrar o valor de um folguedo brasileiro que teve início no século XVIII, misturando aspectos das culturas portuguesa, negra e indígena. Seu Davi, comandava o espetáculo com amor de devoção pela tradição que ele trouxe de Maracás e fez história em Ipiaú. O amor e dedicação a essa arte lhe renderam esse ano (2018) uma homenagem da prefeitura nos festejos de São Pedro.
Durante 35 anos, do inicio de dezembro até o dia  6 de janeiro, a folia se repetiu encantando gerações de ipiauenses com seus exóticos personagens, repertório e coreografia. O elenco era formado por 30 pessoas, entre familiares, vizinhos e amigos de seu Davi. Carlinhos e Cosme davam o movimento ao boi que durante a dança era morto e em seguida ressuscitado por um puxão no rabo. Natani era o vaqueiro, Valdemir e Cleidson dançavam na mulinha-de-ouro, Nai e posteriormente Coinha faziam  a Margarida, enquanto Neguinho, que hoje é arbitro de futebol, interpretava o palhaço.
A sonoridade (tambores, pandeiros e pífanos) ficava a cargo de Valdomiro Coveiro, Val, Miguel, Gaso e Vardo que também se encarregavam de fazer o coro masculino das toadas puxadas por seu Davi. As vozes femininas ficavam por conta de dona Eulina (esposa de seu Davi), Noemia, Maria Baixinha e Tute. O figurino, confeccionado por dona Eulina, completava a riqueza do cenário. O  “Boi Estrela”, saia da residência de seu Davi, na Rua da Batateira, percorria diversos pontos da cidade e chegava até a zona rural. Seu grande incentivador foi o ex-prefeito Hildebrando Nunes Rezende.

Davi de Souza Menezes também conhecido como Davi do Bumba Boi, nasceu no município de Santa Inês, foi criado em Maracás e chegou a Ipiaú no inicio da década de 1950. Com sua esposa Eulina Maria da Silva gerou 21 filhos que multiplicaram a descendência em dezenas de netos, bisnetos, tetranetos.
Fiscal da Prefeitura
Durante muitos anos, seu Davi trabalhou como fiscal da Prefeitura Municipal de Ipiaú, mantendo-se fiel cumpridor dos deveres. Também foi feirante, vendedor de tomates e outras verduras, sendo um dos pioneiros da antiga “Ferinha”, no Bairro da Democracia. Era de temperamento sóbrio. Não usava bebidas alcoólicas e nem fumava, mas gostava de política. Se dizia um legitimo “garrancho”, militante do velho MDB ipiauense, seguidor de Hildebrando e Euclides Neto. Quando tinha oportunidade subia no palanque e mostrava seus dons de bom orador. Era devoto de Bom Jesus da Lapa e todo ano seguia em romaria para o famoso santuário.
No apoteótico desfile em homenagem ao cinquentenário de emancipação política de Ipiaú, na ensolarada manhã do dia 2 de Dezembro de 1983, seu Davi, e todo seu séquito, esteve presente mostrando a grandeza da tradição. Durante o cortejo soprava um pífano e se mostrava honrado em  participar da homenagem.
Chapéu panamá, lenço vermelho no pescoço, respeitável bigode branco, o homem do bumba boi faleceu em Ipiaú, no dia 10 de julho de 2002, aos 83 anos de idade. Um ano antes, comandou, na Avenida São Salvador, a última apresentação do seu Boi Estrela. Ficou na história, na memória de tantos que testemunharam a arte da sua luta em defesa de tão importante manifestação folclórica. O Boi Estrela ainda brilha, cintila em tantas lembranças. (Giro/José Américo Castro)