Família espera há mais de um ano para enterrar parente em Ilhéus

quinta-feira, outubro 11, 2018
A dona de casa Marliene Cintra dos Santos, 33 anos, já se acostumou com a peregrinação. Há um ano e um mês, pelo menos uma vez por semana, ela sai de casa, no bairro de Teotônio Vilela, em Ilhéus, e vai até a sede do Departamento de Polícia Técnica (DPT) da cidade do Sul do estado. É lá que, desde 10 de setembro do ano passado, está o corpo de seu irmão, Waldiney Cintra dos Santos, 31.

Waldiney morreu carbonizado, dentro da própria casa. Só que é impossível reconhecê-lo. Para o DPT, somente um exame de DNA pode confirmar se realmente se trata dele. O problema é que o material genético é colhido em Ilhéus, mas o exame é feito na sede do DPT, em Salvador.

Na época, Waldiney morava com a mãe no município de Una, também no Sul da Bahia. Numa madrugada de sábado para domingo, a casa foi invadida e Waldiney foi morto. Foi esquartejado e, em seguida, carbonizado. A própria residência onde moravam foi incendiada e completamente destruída. No entanto, ela e a mãe não têm dúvidas de que se trata do irmão.

A família não entende as justificativas. Até hoje, não conseguiram enterrá-lo. A mãe deixou de morar em Una – não quis mais construir nada no mesmo terreno. Se mudou para Santa Luzia. “A família está arrasada, porque a gente fica esperando e nada, é uma angústia de todo mundo. Depois desse tempo todo, essa análise não foi feita? Já era para ter sido feita há muito tempo”.

Waldiney não trabalhava. Segundo a irmã, por conta de um problema de saúde, era sustentado pela mãe. Era separado da mulher e tinha um filho – hoje, a criança tem oito anos.

Marliene chegou a tentar pedir auxílio da Defensoria Pública do Estado (DPE), mas desistiu, ainda no ano passado. “Eles explicaram que demorava mesmo, depois a defensora entrou de férias e eu nunca mais voltei lá. Você vai tentando, tentando e não consegue. Por isso, eu desisti”, explica.

De acordo com a assessoria do DPT, "o exame do suposto Valdiney Cintra dos Santos está em processamento". 

Em nota, o órgão informou que: "o exame de DNA é a última possibilidade de identificação humana, ele só é realizado quando não são possíveis as identificações pelas impressões digitais ou pela arcada dentária. Por sua complexidade e pela demanda, não apenas para identificação humana, como também nos casos de crimes sexuais e contra a vida, o DNA, requer um maior prazo para conclusão. Nos casos de corpos carbonizados, putrefeitos ou ossadas, com frequência os exames são processados por técnicas diferentes, muitas vezes com repetições, até se alcançar resultados aceitáveis estatisticamente". 

*Conteúdo reproduzido do CORREIO