Nego Jairo dos anos 70 e de todos os tempos

terça-feira, novembro 13, 2018
Na Ipiaú de todos os tempos fica a figura impar do negro Jairo. Singular, raquítica, tropicalista, repleta de sonhos e fantasias. Síntese distorcida das lisergias dos anos 70. 

Um garoto que amava os Beatles e os Rolling Stones. Curtia Jimi Hendrix, Renato e Seus Blue Caps, Jerri Adriane, Mach Five e Embalo 4, Grupo Imaginação.

Frequentava as portas do Éden, os chás dançantes do Rio Novo Tênis Clube, o bar e boite “Barcaça”, os bancos da Praça Rui Barbosa.

O olhar fixado na torre blue da igreja de Ipiaú , acima da qual “um céu de estrelas sempre a brilhar”, ia além do que as vistas alcançavam.

Colírios, delírios, viagens... Xaropes, opiodes, ondas de baixo custo, baratos que custaram caro à sua pessoa.

Navegação sem bússola no vasto oceano da existência. Buscando “um Oriente ao oriente do Oriente”. O poeta lusitano Fernando Pessoa, em seu heterônimo Álvaro de Campos, certamente o compreenderia.
Aos 59 anos de idade Jairo perambula pelas ruas, pede um trocado, estende a mão. Anos 70 tão distantes e tão presentes nas vestes, nas ideias e gírias, nas estradas que percorre. O personagem neles, em eternidade. Hippie, Hendrix , rock and rool.

Tudo isso lhe mantendo vivo, em resistências.

Anos 60, pós revolução (golpe) militar: Jairo ainda criança, morando na Rua Floriano Peixoto, brincando de gude, jogando pião, triangulo... Correrias de picula, de “salvar”, com sua turma: Tonhe Saci, Luizinho (seus irmãos), os filhos de Hildebrando, Breia, Adelson Negão, Carlos Jordan, de Walter Hollewerger, Robertinho e Kleber Muniz.

Frequentando a casa de Pedro Haage, de dona Filinha, fazendo favores à vizinhança.

Seu pai, João Vaqueiro, e sua mãe, Celina Lavadeira, davam muito duro para sustentar a família de oito filhos. Batizaram-lhe com o nome de Jalon dos Santos Marques, mas sempre foi chamado de Jairo, nego Jairo para os mais próximos.

Fez o primário em três escolas, ingressou no GEI, no entanto não completou o curso ginasial pois os acordes dissonantes lhe conduziram a outros rumos.

Fabricou uma guitarra de madeira, conseguiu um pandeiro sem couro, e se disse músico, cantor e compositor. Achou-se cineasta com muitas idéias na cabeça e nenhuma câmera na mão. Ator de filmes de espionagem.

Não tardou um pauzinho na coisa, uma onda diferente pra curtir as neblinas da festa de São Roque. Queria proximidades com os jovens da burguesia, mas sofreu descriminações. Preto, pobre e xarope, sem alternativas e malícias.

Intensificou viagens, materiais e mentais. Transitava em Jequié, Itabuna, Ilhéus e outras cidades da região. “Perdeu-se em transparências latejantes”.

O alimento minguado era garantido com a atividade de engraxate, lavagem de carros, faxinas, mendicância. O que sobrava era do “bagulho”. Na capanga: frascos, comprimidos, registros. Sofreu relento, ficou estrunchado, dormiu na rua, perdeu os dentes, sobreviveu.

Sobrevive.

Em pose tântrica no banco da praça, ou no meio fio da rua, observa a cidade, transeuntes e veículos, gente apressada que nem lhe olha.

Com cara de sofrimento reafirma ser artista e diz estar cansado.

“ Não quero mais saber de curtição, pois agora eu tenho a ciência da natureza na minha ideia. De vez em quando tomo um remedinho para melhorar a cabeça”, filosofa.

*Por José Américo