O desafio do recomeço – Simone Cafeseiro explica


Todo começo é novidade, é desbravar um caminho desconhecido, é construir um lugar na existência com as ferramentas que ainda estamos aprendendo a usar. É dar passos com frio na barriga por não saber o que vem pela frente, mas com o encanto das fantasias que permeiam as nossas expectativas e que acabam sendo uma motivação a mais nesse percurso. Do outro lado, o recomeço dispõe outros desafios. Ele implica em lidar com perdas, com frustrações, com desamparos e desconfianças. O recomeço é a lembrança do que não funcionou na tentativa inicial. É um caminho novo que nos permite usar as ferramentas adquiridas com as vivências passadas.

São diversas as situações que as pessoas se veem confrontadas a recomeçar. Sejam por perdas financeiras, ou por relacionamentos que chegaram ao fim, nos 5, 10, ou 40 anos de casamento. Às vezes, bem menos que isso. Situações ainda bem mais traumáticas podem exigir recomeços dolorosos, como perdas familiares,  catástrofes, acidentes, doenças, e tantas outras dessas experiências que chegam na vida, sem preparação ou aviso prévio. Surpresas danosas. E como lidar com essas situações quando parece que não há de onde tirar forças ou mesmo traçar uma estratégia e plano de fuga?

Até porque, não se pode fugir de traumas que afetam as emoções. É até possível negá-los, como forma de suportar a realidade. Mas quem os tem, saberá que em alguns momentos esbarrarão na sua dor, e que essa, ainda que esteja sendo negada, se tornará um empecilho para avançar em outras áreas da sua vida.

Eu gostaria muito de poder dizer que existe uma fórmula mágica para que tudo se resolvesse nessas situações, ou que em um piscar de olhos a vida ganhasse o sentido que foi perdido. Seria fantástico, mas eu estaria sendo no mínimo, leviana. Nem mesmo as centenas de livros de autoajuda que alguém possa ler surtirão efeito, se o comprometimento não passar da leitura. Como diz aquele ditado popular, isso não passaria do: “Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço!”

É preciso encarar a realidade por mais dura que ela seja, e admitir o quanto ela interfere na própria vida. Admitir é reconhecer, e é a partir do reconhecimento que fazemos a respeito de nós mesmos, que é possível recomeçar.

A escuta clínica oferece esse espaço onde é possível falar sobre os reconhecimentos acerca de si próprio. Das perdas, dos danos, dos medos, das frustrações, das dores, mas também das possibilidades dos recomeços, dos aprendizados, das lembranças, da força, da sobrevivência, do lugar onde se estar, e de um novo caminho a seguir.

Simone Souza Cafeseiro – Psicóloga Clínica CRP-03/19407