A guerra dos sexos, como começou? Simone Cafeseiro explica


Quando falamos em guerra dos sexos, logo pensamos sobre uma disputa de poder entre o sexo feminino e o masculino. Mas, a partir de que, ou de quando, essa guerra dos sexos, começou? No período pré-histórico, a mulher era vista como um ser especial, mágico. Fascinava a sua capacidade de gerar filhos e produzir alimento em seu seio. A gravidez era um mistério, pois ainda não era relacionada as relações sexuais.

Homens e mulheres se relacionavam livremente com quantas pessoas quisessem. Estudiosos do assunto, descrevem que não há indicativos de que havia dominação de um sexo sobre outro, as relações eram igualitárias. Não existiam tabus, seja na forma de se relacionar sexualmente, ou nas divisões de trabalho para sobrevivência. Foi apenas depois que o homem descobriu seu papel na função de procriar, e que essa constatação lhe serviu como recurso de poder e de crescimento entre os povos, que as relações entre homens e mulheres começaram a mudar. A cultura do patriarcado nasce a partir dessas mudanças.

O patriarcado, é um sistema onde a figura masculina detém o exercício do poder e da ordem na sociedade. Com a instauração de um sistema patriarcal, passa a existir uma divisão entre o masculino e o feminino. E ambos, homens e mulheres passam a se submeter aos padrões que surgem a partir dessa divisão.

Por muito tempo, o sêmen era concebido como sagrado, e os homens passaram a serem considerados como seres superiores as mulheres. Os estereótipos foram surgindo, e se tornando determinantes no comportamento e na formação de ambos. Homens e mulheres, foram se enquadrando em moldes que os separavam enquanto grupo, e os oprimiam em seus anseios particulares.
Frases comuns a serem ditas, como: -” Seja Homem! Ou, homens não choram!” Revelavam o quanto nascer homem, era determinante em não poder, em hipótese alguma, se mostrar frágil e vulnerável.

Por outro lado, a cultura do patriarcado autorizava ao homem, uma liberdade sexual que era negada a mulher. Talvez, muitos considerem isso uma bobagem, mas, é no inconsciente coletivo que frases como essas, passam a direcionar a forma de viver de muitas pessoas. Por ter sido colocada em um lugar de inferioridade, a mulher teve muitos direitos negados. Ao longo da história, mulheres tiveram que lutar para mostrar que também são seres que pensam, que sentem, que desejam e que gozam.

Por muito tempo, em várias culturas, a mulher não poderia sentir prazer sexual, pois apenas o homem tinha esse direito. Precisaram lutar para poder falar em público, para ter direito ao voto, para trabalhar, para se divorciar, e decidir até sobre o próprio corpo. A mulher era vista apenas como alguém que tinha a função de parir e cuidar das tarefas do lar. Ter filhos não era uma escolha, era uma obrigação. E mesmo depois do surgimento dos métodos contraceptivos, muitas mulheres eram proibidas pelos seus parceiros, de fazer uso destes.

Enquanto as mulheres eram oprimidas pelas leis do patriarcado, os homens também pagaram um alto preço por terem se colocado nesse lugar de dominação. Estes, foram induzidos a negar em si, todos os traços que foram categorizados exclusivamente como parte do universo feminino. Sim, porque ambos, homens e mulheres recebem desde seu nascimento, em seu gene, características que são inerentes a natureza humana. E estas características, se fundem na participação de ambos os sexos desde a concepção.

Os padrões comportamentais são resultado de um conjunto de crenças e valores que regem a sociedade na qual estamos inseridos, e que nos influenciam diretamente. Se chorar foi dito como “coisa de mulherzinha”, no sentido diminuído e pejorativo da palavra, imagine então, ter “jeitos femininos”? Apreciar o universo feminino, ou se identificar com o mesmo, sendo biologicamente homem?Não por acaso, o homem visto como “afeminado”, sofreu e ainda sofre um preconceito ainda maior do que a mulher. Pois, para o patriarcado, um homem com traços de mulher, é um homem inferior, é inaceitável.

Essa mentalidade patriarcal, machista e sexista, tornou o Brasil o país que mais mata homossexuais no mundo. E isso sim, deve ser inaceitável. A organização da sociedade é importante, sobretudo quanto possuímos um conjunto de leis e valores que protegem e ajudam os seres humanos a viverem em harmonia entre si, com respeito e igualdade de direitos. No entanto, quando o sistema é regido por leis que sustentam desigualdades e fortalecem crenças opressoras entre grupos, as consequências são de um mal-estar social, que gera sofrimento psíquico e conflitos relacionais.

Hoje, muitos homens e mulheres se reorganizam na sociedade, na família, ocupando papéis diversos, que já não são mais exclusivos de um sexo ou de outro. Mas, apesar dos avanços, ainda é alto o índice de violência contra as mulheres, e a comunidade LGBT. Ainda é muito presente o discurso machista que desqualifica e subjuga essas pessoas. Ainda há muitas desconstruções importantes a serem feitas. E para além das diferenças e categorizações que nos separam, seja pela orientação sexual ou de gênero, existem particularidades humanas que nos unem. E é nesse ponto que nos une, que devemos avançar, juntos. Produzindo e promovendo reflexões. Escutando uns aos outros, e se abrindo à possibilidade de caminhar lado a lado. Afinal, essa é uma guerra que todos saem perdendo.

Simone Souza Cafeseiro- Psicóloga Clínica (CRP-03/19407)

Referência bibliográfica: Navarro, Cristina. “O livro do amor, da pré história a renascença”. Vol.1-Rj 2015.