‘Basilão’ – personalidade folclórica de Ipiaú


Foi no dia 23 de maio de 1928 que Brasilio Alves Cerqueira nasceu na zona rural do município baiano de São Gonçalo dos Campos. Seus pais, Anselmo Cerqueira e Juvência Alves Cerqueira, criavam galinhas e cultivavam cajueiros dos quais extraiam castanhas que garantiam o sustento da família. O nome ( Brasílio), referente à pátria, moldaria a personalidade do menino que se tornou um autêntico nacionalista. Com a idade de 12 anos, Brasílio deixou a casa paterna e foi em busca da independência. Conseguiu emprego como auxiliar de cozinheiro em um acampamento da empreiteira Servienge (Companhia Serviços de Engenharia). Pouco tempo depois já comandava o setor. Aproximou-se dos mecânicos e aprendeu a consertar máquinas pesadas e a arte de pilotá-las. Tornou-se exímio tratorista, correu trecho… Foi nessa labuta que chegou em Ipiaú, no ano de 1953. A Servienge tinha sido contratada para abrir a rodovia estadual que liga a região de Baixa Alegre aos distritos de Itaibó e Córrego de Pedras, além de outras estradas no sudoeste da Bahia. Em Ipiaú, conheceu a adolescente Aurelina Santos, então com 14 anos. Casou-se com a filha de dona Filinha (Josefa Vidas dos Santos), constituindo numerosa família. O casal teve 10 filhos: Noêmia, Paulo, Rose Meiry, Rosangela, Rosemare, Luis, Paulo, Rosana, Anselmo, Roberta e Balbino. De uma relação extraconjugal, em Jequié, Brasílio, gerou mais um descendente: Marilene da Hora, completando a numeração de um time de futebol. O patriarca era torcedor do Flamengo. Devido à altura de quase 1,90 m, juntamente com a massa corporal avantajada e a voz sempre em tom elevado, lhe deram o apelido de “Basilão.

A condição de tratorista profissional permitiu-lhe um emprego na Prefeitura de Ipiaú. Atuando nas gestões de José Motta Fernandes, Salvador da Matta, Zequinha Borges e Hildebrando Nunes Rezende, abriu muitas estradas vicinais, represas e ruas na cidade. Desses serviços sugiram as ruas do Cruzeiro e Nova Conquista, extensão da Tomé de Souza, e os bairros Constança e Conceição, dentre outros logradouros. Basilão também prestou serviços a uma empreiteira de terraplanagem, cujo proprietário era Antonio Luz, o popular “Tonhão”. Elogiava a honestidade de Salvador da Matta e lamentava ter sido afastado da gestão de Hildebrando por conta de fuxicos políticos. Acusaram-lhe de ter votado contra o prefeito.

BAR NA ANCHIETA
Ao deixar a Prefeitura abriu um bar em um cômodo da sua residência, na Rua Anchieta. A freguesia eclética envolvia políticos, intelectuais, estudantes, fazendeiros, boêmios, e tantos outros tipos. Alguns compravam fiado e deixavam de pagar, avolumando as notas penduradas no prego. As especialidades da casa eram o coquinho, a erva-doce e a tripa de porco. Não faltava uma cervejinha bem gelada.

Dentre os fregueses mais assíduos estavam Álvaro Duarte, Manoel Falcon, Zé Ramos, de Barra do Rocha, Isidro Nunes, Amilton Pimenta, Marinho Muniz, Hildebrando, Duéde, Dinho Fubuia, e cia. Até Vanda Doida e seu amado Dão, apareciam por lá. O palhaço “Fura Fura”, que fugiu com o circo da Prefeitura era outro ilustre frequentador do Bar de Basilão. O auê ganhava força quando chegava Zebrinha, com sua turma: Leão, Veras, Conça Barbosa e João Kleber, dentre outros ilustres representantes da vanguarda psicodélica ipiauense.

O famoso cantor e compositor Luis Caldas também frequentava o bar. O criador da axé music tocava violão,enquanto a atriz Lurdinha Bezerra declamava belas poesias. Atendendo com paciência, Basilão ficava discretamente atento às conversas e depois tirava conclusões hilariantes, acrescentando um novo causo ao seu vasto repertório.

Ele não gostava quando lhe chamavam pelo diminutivo, pois considerava que isso não era coisa de homem. “Fala Cacete”, era o seu bordão predileto. Nos olhos graúdos, sempre vermelhos, costumava pingar gotas de limão mirim. O exótico colírio era motivo de piadas. Ninguém acatava a recomendação de que o remédio era bom para as vistas.

O vozeirão de Basilão era ouvido à distancia.A gargalhada formidável não ficava por menos. Contava piadas, histórias da sua vida. Católico praticante, não perdia missa dominical, nem procissão de São Roque. Gostava de fazer caridade e recebia muitos amigos em sua casa. Era um homem do bem, tinha muita bondade no coração.

Um dia sofreu uma parada cardíaca e foi dado como morto. Reagiu, arregalou os olhos vermelhos, comprometidos pela catarata, e sobreviveu por mais três anos. O velho coração não suportaria outra porrada. No dia 26 de fevereiro de 2013 parou de pulsar. Basilão vinha resistindo desde o dia 23 de dezembro quando foi internado na U.T.I. do Hospital Manoel Novaes, em Itabuna. (Giro/José Américo Castro)