Personalidade Folclórica – Dona Preta com os temperos de uma moqueca baiana


Foto: Arquivo Familiar

Natural de Nova Ibiá, antigo Tabuleiro, município onde se localiza a comunidade quilombola do Canarisco, Jovelita Laurentina Silva tinha todas as características da ancestralidade africana. Os traços étnicos, a culinária, o sincretismo, a fertilidade, a alegria e a resistência evidenciavam com mais precisão essa ligação com os negros que rejeitaram a crueldade da escravidão e refugiaram-se nas matas baianas para assegurar a condição de ser e viver livre. Todos as chamavam pelo apelido de “Preta”, o que acentuava de maneira carinhosa a nobreza da sua negritude. Torso de seda, sorriso de marfim, gargalhadas escancaradas de mucama que tornou-se matriarca bem amada. Sozinha criou 11 filhos que lhes deram 24 netos e 13 bisnetos, descendência que se espalha Brasil a fora e até no exterior. Fernando mora no Canadá, Sueli passou uma temporada de mais de 15 anos na Suíça, cozinhando para um empresário dos tecidos de seda. Também prestou serviços, por um bom tempo, na casa da atriz Glória Pires, no Rio de Janeiro. A prole repete a sua capacidade para o trabalho, coragem e honestidade.Dona Preta chegou em Ipiaú com 17 anos de idade. A labuta pela sobrevivência era intensa.Trabalhou como doméstica, aguadeira e lavadeira. Quando não estava com a lata d’água na cabeça, enchendo tanques das residências dos barões da cidade, era observada junto aos lajedos do rio, lavando e quarando roupas. Antes de iniciar essa rotina estafante, madrugava vendendo mingau na Rua do Sapo. Filhos nascendo, família crescendo, exigindo mais esforço na peleja.

Os segredos dos temperos aprendidos com sua mãe Demétria foram essenciais para que conseguisse um emprego no Galo Vermelho, o melhor restaurante da região. Dividia o trabalho com sua amiga Joana. Tornou-se cozinheira de mão cheia, ganhou fama e prestígio. As iguarias dos banquetes do Rotary Clube, os petiscos das farras dos coronéis, os jantares de confraternização, contavam com sua arte na culinária.

Criou um ciclo de bons amigos na Rua Mira Rio e adjacências. Priorizava o pessoal mais simples: Cassiano, Coelho Pintor, Joana Cozinheira, Maria Emília, Nenzinha, Maria Paula, Clarice do Mingau e outras figuras que entraram no folclore ipiauense. Com eles compartilhava experiências e diversões. Não dispensava um aperitivo para aliviar o juízo e buscar inspiração.

Paralelo ao trabalho no Galo Vermelho, foi montando seu próprio negócio na casa onde morava em frente ao Rio de Contas, fundos da rua Dois de Julho. O local passou a ser frequentado por Hildebrando Nunes Rezende, Euclides Neto, Alex Muniz Ferreira e outras personalidades que apreciavam uma boa comida.

Preta aceitava encomendas, fazia pronta entrega, atendia à freguesia crescente. Levantou a guia, se aprumou e foi presenteada por Alex Muniz com uma casa na Mira Rio, estabelecendo ali o famoso Restaurante Maria Gorete. O nome do estabelecimento foi uma homenagem à santa católica da sua devoção. Dona Preta sempre foi grata a Alex pela dádiva recebida.

Se considerarmos a ancestralidade , dona Preta estava mais para uma legitima filha de Iansã, a deusa pagã dos relâmpagos, rainha dos raios, tal a energia que lhe movia e vitalizava. Eparrei Oyá!

O Restaurante Maria Gorete superou as expectativas. Políticos, artistas, empresários, fazendeiros e bancários, dentre outros, davam preferência às especialidades da casa:carne do sol com pirão de leite, filé à parmegiana e pescados. A clientela saía lambendo os beiços e com desejo de voltar outra vez. Ninguém resistia à moqueca de pitu!

Um dos mais assíduos frequentadores do restaurante era o então milionário, Divaldo Angelin Veras que chegava com sua turma, inclusive o famoso coreografo Lane Dale, na maior larica, bancando tudo. Depois de torrar toda a fortuna, Veras curtiu o resto da vida na pobreza material. Compadecida dona Preta lhe dava conselhos e comida.

Péricles Thiara, Judival Andrade, Antônio José Pinheiro (Zebrinha), Miguel Coutinho e companhia estavam sempre por lá. Quando vinham se apresentar em Ipiaú os cantores Luiz Caldas, Sidney Magal, Sandro Breker, Soró Sereno, Márcio Greyck, Waldick Soriano, Nélson Gonçalves e demais estrelas da MPB, além de atores e jogadores de futebol nunca deixavam de ir ao Restaurante Maria Gorete.

Às vezes Preta saía do recinto e ia com sua equipe preparar banquetes para autoridades políticas em alguma fazenda do município. Assim aconteceu com o então governador Antônio Carlos Magalhães e comitiva. Na cozinha do restaurante, dona Preta regia tudo e contava com o auxílio de suas filhas e agregadas. Algumas das meninas atuavam como garçonetes. Era de fato uma empresa familiar.

Além de pagar a conta, os satisfeitos fregueses davam generosas gorjetas à moçada que lhes atendia. Dona Preta trabalhava cantando, contando piada, dando gargalhadas. Era fã de Amado Batista. Quando terminava o expediente, tomava umas cervejas e dançava com as filhas. Outras vezes ficava conversando com Cassiano Pescador, contando histórias, planejando o dia seguinte.

Não era de estranhar se algum admirador, tipo o poeta Deledel, passasse na porta da sua casa e a reverenciasse cantando o refrão da famosa canção dos Novos Baianos : – “Preta, Preta, Pretinha…”. A inevitável gargalhada vinha como resposta de agradecimento. *Por José Américo Castro/Giro Ipiaú