Os prefeitos de Ipiaú


Salvador da Matta e José Mota Fernandes
Em 17 de dezembro de 1930 o então distrito de Rio Novo foi elevado à condição de subprefeitura de Camamu. Com isso ganhou uma nova estrutura administrativa, inclusive tendo sido criado o cargo de subprefeito, o qual tinha a função de tratar das questões locais. Foram três os subprefeitos de Rio Novo: Waldomiro Almeida Santos, Osório Cordeiro da Silva que conseguiu que a subprefeitura fosse anexada ao município de Jequié, Leonel Dias Andrade (1931/32) e Antônio Augusto Sá (1932/33) em cuja gestão ocorre a emancipação política de Rio Novo (2-12-1933) continuando no cargo como prefeito nomeado. Ao conquistar a sua autonomia política, Rio Novo passou a contar com o cargo oficial de prefeito. Alguns desses prefeitos, a exemplo de José Mendonça, Hildebrando Nunes Rezende, José Motta Fernandes e Salvador da Matta (foto), também foram vereadores na Câmara Municipal de Ipiaú. Da relação dos prefeitos constam as seguintes personalidades:
Antônio Augusto Sá (17/12/1933-1934) – Quando subprefeito realizou os primeiros calçamentos de ruas (Siqueira Campos e Floriano Peixoto) da localidade. Durante a sua gestão o cenário político nacional estava muito agitado. Fundou o Partido Social democrático (PSD) no município e logo após sai do cargo.
José do Eirado Silva (07/10/1935-1936)- Filho do Coronel Guilherme Silva, um dos fundadores da cidade de Jaguaquara e cunhado de Leonel Dias de Andrade liderança política que o PSD pleiteava atrair para os seus quadros. Dai a substituição de Antônio Augusto Sá por José do Eirado Silva.
Leonel Dias de Andrade (1936-37) – Primeiro prefeito eleito. Em 1932, exerceu a função de subprefeito. Sofreu forte oposição dos integralistas que tinha em Rio Novo as lideranças de Durval Hohlenwerger Filho, Aristóteles Andrade e Dr. Fontana. Os integralistas desafiam as ordens do prefeito que então autorizou ao delegado Domingos Castro a recolher todas as camisas verdes, mesmo através da força. Após o golpe de 1937 (Estado Novo), Juracy Magalhães que não apoiou Getúlio Vargas foi destituído do governo da Bahia e o seu aliado Leonel Andrade exonerado do cargo de prefeito de Rio Novo. Com a ação do delegado teve inicio declínio do partido integralista no município.
Eurico Simões Paiva (17/12/1937-1938) – Era médico e foi responsável pela implantação da iluminação elétrica em Rio Novo. Em sua gestão também foi implantado o Posto de Higiene, com direção do médico Jaldo Reis. Esse trabalho promoveu a erradicação de varias epidemias na região. Exonerou-se do cargo de prefeito, depois que saiu sua nomeação como médico legista do estado.
Jaime Pontes Tanajura (11/03/1940-1943)-Médico e membro de família tradicional de Caetité. Fez o primeiro calçamento a paralelepípedos, na Rua Dois de Julho.
Agostinho Cardoso Pinheiro (26/03/1940-1943)- Advogado, natural de São Miguel das matas. Ampliou os calçamentos a paralelepípedos e promoveu melhorias em vários distritos. Na década de 1960 foi eleito deputado estadual. Era pai do artista plástico Antônio José Pinheiro e da professora Ana Maria Pinheiro.
Antônio Lisboa Nogueira (12/06/1945-1946)-Sergipano de Laranjeiras foi o primeiro cirurgião dentista a se instalar na região. Lutou pela emancipação política do município. Durante o seu mandato foi instalada a Comarca de Ipiaú, sendo o primeiro Juiz de Direito, Dr. Milton Costa. Mandou construir currais de matança (abatedouros bovinos) na sede e em todos os distritos do município. Auxiliou na fundação da Loja Maçônica, Rotary Club de Ipiaú e agencia local do Banco do Brasil.
José Borges de Barros (28/04/1946-05/12/1946)- Primeiro médico de Ipiaú. Chegou na localidade em 1923, atraído pelo desenvolvimento da região e pela demanda de médicos devido ao alto índice de malária. Tornou-se muito querido pela população  e deixou numerosa família.
Sandoval Fernandes Alcântara (05/12/1946-1948)-Comerciante em Ubatã, pessedista, foi indicado pelo ex-prefeito Antônio Nogueira. Nomeado no período de transição para a redemocratização do país, após o fim do Estado Novo. Trabalhou na construção de estradas no interior do município e promoveu o calçamento da Rua Silva Jardin.
Pedro Caetano Magalhães de Jesus (1948-1952)-Natural de Senhor do Bonfim, advogado, foi o primeiro prefeito eleito em Ipiaú após o fim do Estado Novo (ditadura de Getúlio Vargas).Sua administração foi marcada pelo investimento na educação, sobretudo no ensino primário. Construiu várias escolas no município, dentre elas o Colégio Celestina Bittencourt. Durante a sua administração foi fundado o Ginásio de Rio Novo e construído o Estádio Municipal de Futebol que posteriormente recebeu o seu nome.
José Muniz Ferreira (1952-1955)- Mais conhecido como Juca Muniz, genro do coronel Durval Hohlenwerger e irmão de Edízio Muniz Ferreira. Promoveu a ampliação da rede de esgotos das ruas Anchieta, Rio Branco, Castro Alves, a colocação de meios fios da Rua Juracy Magalhães e a remodelação da Praça Rui Barbosa.
Salvador da Matta (17/04/1955 14/04/1959 e 1971-1973)-Natural de Catú foi um dos maiores intelectuais da região. Homem culto, formou-se em medicina pela Universidade Federal da Bahia com apenas 22 anos de idade, em 1937. No ano seguinte instala-se em Rio Novo passando a exercer a sua profissão. Em 1950 fundou o Ginásio de Rio Novo, marcando uma nova fase na educação do município. Sua primeira administração municipal se caracterizou por investimentos em obras de saneamento básico, ampliação de rede de esgotos, calçamento de ruas e construção de escolas. Construiu a ponte sobre o rio das Contas, ligando Ipiaú à vila de Japumirin, no município de Itagibá. Na segunda gestão construiu o Centro Administrativo do Município, pavimentou diversas ruas e concluiu a iluminação da cidade com lâmpadas a vapor de mercúrio. 
José Motta Fernandes (14/04 /1959 a 07/04/1963 e 07/04/1967 a 1971, além de 1996-2000)- Único político a administrar o município de Ipiaú em três ocasiões. Era natural de Sergipe, residia inicialmente no distrito de Barra do Rocha sendo um dos representantes do mesmo na Câmara Municipal de Ipiaú. Em seu primeiro governo, dentre outras obras, construiu a ponte sobre o rio Água branca, nivelou a Rua do Cruzeiro e calçou as ruas Mira Rio, Alfredo Brito e José Muniz Ferreira, iniciou a obra de construção do Mercado Municipal e promoveu melhorias no distrito de Algodão. Na segunda gestão remodelou o Colégio Celestina Bittencourt, concluiu o Mercado Municipal. Na terceira gestão pavimentou diversas ruas e realizou inúmeras outras obras.
Euclides José Teixeira Neto (07/041963 a 07/04/1967)-Nascido no povoado de Jenipapo, município de Ubaíra, filho de Patrício Rezende Teixeira e Edith Coelho Teixeira, advogado, escritor, maior líder político da historia de Ipiaú. Criou a Fazenda do Povo, o Ginásio Agrícola Municipal de Ipiaú (GAMI) e o bairro da Democracia. Em sua gestão, considerada a mais progressista da historia local, com apoio da comunidade é instalado o primeiro hospital publico do município e o Parque de Exposição Agropecuária. No mesmo período Ipiaú recebe o titulo de “Município Modelo da Bahia”, concedido pelo Governo Federal.
Hidelbrando Nunes.
Hildebrando Nunes Rezende (1973-1977 e 1983-1988)-Líder carismático e populista, natural de Ipiaú, investiu no assistencialismo, eletrificou diversas regiões da zona rural, construiu pontes e estradas  e expandiu o bairro da Democracia. Mandou compor o Hino de Ipiaú, fundou o Museu do Lavrador e criou a Secretaria da Cultura, além de construir a Praça do Cinquentenário. Pavimentou a Avenida Getúlio Vargas, Avenida do Contorno, Bairro Euclides Neto e Rua do Honório. 
José Borges de Barros Junior (1977-1982) – Também conhecido como Zequinha Borges, trabalhou para a modernização da cidade, levantou verbas para a construção do Ginásio de Esportes e pavimentou diversas ruas.
Miguel Cunha Coutinho (1988-1992)-Natural de Ibirapitanga foi deputado estadual e manteve o estilo populista na gestão do município de Ipiaú. Suas principais obras como prefeito foi a construção do Conjunto Habitacional Antônio Carlos Magalhães (o bairro ACM), a construção do novo matadouro municipal, a pavimentação do bairro da Conceição e da Rua da Granja. Era formado em sociologia mais nunca exerceu a profissão.
Ubirajara Souza Costa (1992-1996)-Nascido no distrito de Córrego de Pedras, interior do município de Ipiaú, filho do lendário Pedrão, é médico cirurgião. Em sua gestão publica houve investimento na área da saúde e educação, com destaques para as construções do CETAN e os Colégios Ângelo Jaqueira, Edvaldo Santiago, Patrício Teixeira, Pastor Paulo e o Hospital da Mulher. 
José Andrade Mendonça (2000-2004 e 2004-2008) – Natural de Sergipe, filho do famoso empresário Mamede Paes Mendonça, ganhou a simpatia do eleitorado ipiauense e se tornou  um dos líderes  políticos mais carismáticos e  fervorosos da historia do município. Em suas duas gestões implantou  um estilo norteado na austeridade e transparência, combateu a corrupção, realizou inúmeras obras nas áreas de habitação, saneamento básico, infraestrutura e  educação. Incentivou a cultura, investiu na assistência social e promoveu a organização da cidade. Seu grande projeto,  a construção do Parque da Cidade, não chegou a ser concluído por questões políticas. 
Sandra da Purificação Lemos – Administradora de empresas e natural de São Gonçalo dos Campos. Na condição de suplente de José Mendonça em sua segunda gestão, assumiu o cargo de prefeita de Ipiaú no ano de 2008, sendo assim a primeira mulher a ocupar tal posição no município. Disputou a eleição seguinte com o médico Deraldino Araújo que lhe derrotou e assumiu o comando do município.
Deraldino Alves de Araújo– Nascido em Itapitanga, reside em Ipiaú há 30 anos. É médico pediatra e se elegeu prefeito após concorrer em três eleições consecutivas. Realizou obras de infraestrutura básica, esgotamento sanitário, pavimentação, abertura de novas ruas e bairros, construiu quadras poliesportivas e inaugurou o Centro de Abastecimentos transferindo para este local as duas feiras livres que existiam na cidade. (Giro/José Américo Castro)

Personalidades Folclóricas de Ipiaú: Magal


O pedreiro Manoel Vieira é figura conhecida no Show de Calouros na Festa de São Roque.
MAGAL: O GENÉRICO


-por José Américo Castro-
É na Festa de São Roque, território do Programa de Calouros, invenção genial do apresentador João Araújo, que ele emplaca o seu sucesso. O show continua nas campanhas eleitorais quando levanta a bandeira dos candidatos do PMDB e mostra sua habilidade de pé de palanque. A façanha se repete desde os tempos dos “garranchos”.  Sidney Magal, por engano de percurso, ou por pura ironia, tem algo que lembra o homônimo famoso, aquele da cigana Sandra, Rosa, Madalena. Só lembranças…. O cantor daqui mora no “Marrapado”, perto do “Cantinho do Céu”. Correu chão, foi a São Paulo, passou sufoco, ralou na construção civil, rolou nos corredores do metrô, cantou na garoa e concluiu que seu negocio era Ipiaú.  Um dia voltou.
O pedreiro Manoel Vieira, 54 anos, nem sabia que a fama lhe esperava nestas bandas do hemisfério. Foi quando, numa Festa de Santo Antônio, em Japumerin, aceitou o desafiou de participar de Show de Calouros. Subiu no palco e a platéia entendeu de imediato que ali nascia uma estrela. Mesmo às avessas. O seu estilo caricato é um prato feito ao gosto do povo, sempre ávido por bizarrices.  O jeitão de cigano por engano, o rebolado improvisado e a escolha de uma musica do autentico Sidney Magal, estimularam João Araújo e lhe cravar o apelido que ficou em definitivo. Naquela noite foi desclassificado do programa, mas ganhou cadeira cativa no rol dos folclóricos. A partir de então, em todas as edições do Show de Calouros, sempre encontramos Magal ( o genérico) tentando imprimir seu charme, procurando convencer os jurados, desafinando e desafiando as vaias. Insistiu tanto que se tornou atração especial.
Na condição de genérico, Magal desmistifica que seja admirador do original.(Arte:Junier Costa)
João Araújo criou um quadro (O Povo Decide), onde, invariavelmente os finalistas são Magal e Ailton Gospel, outra figura que o folclore desenhou.
Nas campanhas eleitorais do PMDB, lá está Magal com seu estilo genérico, marcando presença,  rebolando, improvisando, animando o pé de palanque, fazendo a multidão rir, provando que na democracia tem lugar pra tudo e todos. Lhe basta uma brecha para cantar, pois é assim que se sente feliz. Nessa disposição ajudou a eleger Hildebrando Nunes Rezende, Ubirajara Costa e Deraldino Araújo. Considera “Dera”, o melhor prefeito que Ipiaú já teve. “Ele me deu Cesta Básica e Bolsa Família”, justifica a consideração. Na condição de genérico, Magal desmistifica que seja admirador do original : “Eu não sou fã desse cara,porque o meu sangue não se uniu com o dele. Eu gosto mesmo é de Raul Seixas ”. De Ipiaú ele diz: “É uma terra boa, mas o desemprego tá demais. Pra ganhar a vida tenho que rebolar no pesado, quebrar pedra na pedreira, fazer brita e vender barato”.

Botas, em estilo roló, cabelos cheios, topete, costeletas, barba rala, cara de pau que só ele mesmo. Magal é assim na sua originalidade genérica, no seu amor pela musica, na franqueza do seu sentimento. Da dança, com os famosos rebolados travotianos, ele revela: “Gosto muito, até ganhei medalha em Itagí, mas os nervos tão ficando duros. Nem sebo de carneiro dá jeito”. (Giro/José Américo)

Personalidades Folclóricas de Ipiaú: Zebrinha


Exagerado, o verso de Cazuza enquadra-lhe bem”, disse Osires
Vieira Rezende (Zarú) ao referir-se ao refinado intelectual  Antonio José Pinheiro que ao mesmo tempo era
o debochado  “Zebrinha”, uma figura que
muita gente de Ipiaú jamais esquecerá e terá sempre uma  história a contar.  Homossexual assumido e escancarado, ícone das
orgias locais, sincero, apaixonado, objetivo, sarcástico, criativo, escandaloso,
demolidor, clássico e folclórico, Zebrinha era assim, em preto e branco e a
cores, exagerado em todos os sentidos. Amado e admirado por muitos, temido (quando resolvia
aprontar), por todos, Zebrinha escandalizou  tudo e de todo o jeito. Seus detratores eram
de imediato enquadrados como homossexuais enrustidos, travestidos de machões e
varões de Plutarco. Ninguém lhe escapava. Certa vez um delegado de policia, de
nome Calazans, ousou lhe prender  e se
arrependeu amargamente dessa audácia em nome da lei, pois sua  autoridade policial foi ridicularizada numa série
de caricaturas coladas nos muros da cidade e intituladas de “Zans-Trans: o
Delegado”.
As festas do Rio Novo Tênis Clube sempre acabavam com um
show de Zebrinha (botas de caudilho, cachecol esvoaçante, cravo vermelho na
lapela) e seu séquito depravado. Dessa maneira também acontecia nas micaretas,
exposições, festejos de São Roque, nos bares, na barraca de Zé de Moraes, no
Galo Vermelho  e  em tantos outros lugares da escandalizada Ipiaú
dos anos 70 e 80. Zebrinha escandalizou até depois de morto. Não queriam que
seu corpo fosse velado na Casa Paroquial, pois sabiam que naquela noite de
sentinela ia rolar de tudo. Seus amigos insistiram e, após um acordo com a
cúpula eclesial, o velório ocorreu no local, mas somente durante o dia,
antecipando assim o momento do enterro. Na hora do sepultamento Tadeu Ribeiro
discursou, soltou as frangas contra o pároco de plantão.
No sobrado da Rua Siqueira Campos, esquina com o Beco de
Ornellas, Zebrinha reinava absoluta. A noite zumbideira descia em aspirais
sonoras delirantes, enquanto a orgia rolava solta. Lane Dale, Dzi Croquettes, Veras,
Leão, João Kleber e outras celebridades se misturavam aos nativos da periferia
da cidade e aos malucos da porta do cinema, um cortejo infindável de bacantes. “Deledel”,
que por motivos óbvios não tinha acesso ao local do auê, ficava lá em baixo, ao
pé da torre, implorando, gritando: -Joga as tranças Rapunzel, joga as tranças
Rapunzel… Zebrinha respondia: “Vá embora Delendas, esse meio não te pertence…
Quando a Seleção Brasileira perdeu a decisão da Copa do
Mundo de 1982 (na Espanha) Zebrinha, todo de preto, se fantasiou de “Viúva de
Telê” (o treinador) e foi aprontar na Praça Rui Barbosa. Os que choravam a derrota
do escrete nacional acabaram sorrindo, curtindo aquela ironia. Suzi Caramelo
apelido que ele deu a “Bocão”, estava ao seu lado, valorizando a curtição,
revelando-se excelente coadjuvante. Vulgaridades à parte, Antônio José Pinheiro era um extraordinário
intelectual e acima de tudo uma maravilhosa figura humana. Quando Ipiaú
completou 50 anos ele promoveu no Rio Novo Tênis Clube uma exposição de artes
plásticas que reuniu alguns dos mais brilhantes artistas baianos, a exemplo de
Carlos Bastos, Gilson Rodrigues e Luis Jasmin. Foi uma rara oportunidade de a
cidade contemplar algumas das suas obras. Seu traço, elaborado, pesquisado, anárquico,
delicado e de muito bom gosto, era fiel à sua concepção estética de sublimação
do belo.

Antonio José Pinheiro (Zebrinha) foi o mais importante
artista plástico de Ipiaú. “Uma perola de poesia e criatividade, refinamento e
cultura. Um exemplo de Dorian Gray (personagem de Oscar Wilde) que o tempo não
teve o prazer de ver envelhecer”. Sua arte explica melhor sua existência. Dizem
que não morreu, virou purpurina, rodopiou nos ares e depois  misturou-se ao pó da terra. (Giro/José 
Américo Castro)

Personalidades Folclóricas de Ipiaú: Veras; de milionário a mendigo


A extravagância era a sua marca registrada. Do mesmo jeito que tratou as celebridades que compartilharam os seus momentos de fausto, considerou os mendigos que lhe acolheram nos obscuros espaços das sarjetas. Divaldo Angelin Veras cunhou a sua imagem nos dois lados da moeda. Nunca evidenciou qualquer tipo de arrependimento e anarquizou enquanto pode. Escandalizou de todo jeito. “É necessário estar sempre bêbado. Tudo se reduz a isso”. Repetia os dizeres do poeta inglês Charles Baudelaire como a própria afirmativa de sua existência. A história de Veras foi contada pelos mais importantes órgãos da imprensa nacional (Fantástico, Isto É, Jornal do Brasil, A Tarde), tornou-se tema de filmes e documentários, motivou debates e até estudos sociológicos. Esnobava ao dizer que tinha ensinado os cacauicultores da região de Ipiaú a gastar dinheiro. Estes nem sequer assistiram “ao formidável enterro da sua ultima quimera”. Quase foi sepultado como indigente.
“Nos degraus de um palácio, na verde relva de um fosso, na desolada solidão do seu quarto” Veras plantou provocações. Percorreu o mundo, desfrutou luxurias, promoveu festas imensas, teve “amigos” famosos: Pelé, Fernanda Montenegro, Amália Rodrigues, Sônia Braga, Carlos Bastos, Michael Douglas, Lennie Dale, Dzi Croquettes. Morou em Nova York, tinha apartamento no Leblon, desfilou em carrões pela Avenida Paulista, trajou-se como príncipe, cortejou mulheres lindas, guapos de encomenda. Tinha aviões e era habilidoso pára-quedista. Nos psicodélicos anos 60/70 foi dono da boate Anjo Azul, point da vanguarda e fermentação cultural soteropolitana. Ali, em uma noite de muita loucura, namorou a pop star Janes Joplin a qual, tempos depois, definiu como “Feia e Fedorenta”. A roqueira estava passeando na Bahia. Veras falava cinco idiomas, fazia poesias, colecionava obras de arte e casou-se com Popó, uma das filhas do milionário Edízio Muniz Ferreira, o maior cacauicultor individual do mundo. Nas sucessivas orgias “cheirou” toda a fortuna que fisgou. Ficou duro, mas não perdeu a ternura. Sem grana foi abandonado pelos famosos, em compensação ganhou o acolhimento dos mendigos. No Porto da Barra, em Salvador, era o único, dentre eles, que pedia esmola em inglês. Isso lhe garantia a proteção dos demais.  Dividia com todos o que recebia dos gringos.
Trouxeram-lhe de volta a Ipiaú. Não aceitou tutelas e passou a morar em um beco dos “Dez Quartos”, antigo brega da cidade. Ali bebia, fumava, atendia à malandragem, concedia entrevistas, escrevia e lia. Lia muito. Jean Ginet, Rimbaud e Baudelaire eram os seus autores prediletos. De Baudelaire repetia: “Para não sentirdes o horrível fardo do tempo, que vos abate e vos faz pender para a terra, é preciso que vos embriagueis sem cessar”. A escritora Regina Echeverria escreveu a biografia de Cazuza e queria fazer o mesmo em relação a Veras. A Editora Corrupio publicaria o livro. Poesias inéditas e outros relatos completariam a obra. O projeto não vingou e os originais se perderam. Vera pouco se importou com isso. A ele bastava declamar os poemas que ainda guardava na memória: “Habita em mim um ser que veste hábito.
Que prometeu sempre me levar em direção ao puro e sacrossanto, quando o meu eu pensa que não há. Espero sempre o meu, eu, velho monge, adormecer para o meu eu jovem na vida, se atirar. Se arriscando às ilusões da vida que o meu eu, velho monge, sabe que há”. Nas ilusões da vida Veras viveu seu tempo de sonhos e pesadelos e se algum dia acordou para a realidade teve imediata vontade de dormir! Morreu aos 67 anos de idade. ( Giro/José Américo Castro)

Personalidades Folclóricas de Ipiaú: Roberto Carlos, o tiete do rei


Pense num cara fanático pelo famoso cantor Roberto Carlos. Pois
é, em Ipiaú tem um desses. Seu fanatismo é tanto que ele chegou a admitir
trocar de nome pra ficar igualzinho ao do astro que idolatra sem nenhum
acanhamento. Mas não precisou ir tão longe porque o povo providenciou lhe
apelidar do jeito que queria: Roberto Carlos. E o fã vibra quando assim é
chamado. Jorge Lima Alves, 54 anos, dono de um bar e cambista do Jogo
do Bicho, natural desta cidade, mais conhecido como “Roberto Carlos”, tem como
principal motivo da sua existência a tietagem ao celebre artista da MPB. Conhece
toda a trajetória do “Rei”, coleciona os discos, DVDs, recortes de jornais,
enfim tudo que se refere ao ídolo e que está ao seu alcance.
O acervo que ele juntou ao longo do tempo, desde criança, é
exposto em seu estabelecimento comercial denominado de “Detalhes Bar”, na rua Adenor dos Reis Soares, bairro Euclides Neto.
O ambiente é todo decorado com fotos, capas de discos e outras estampas do cantor.
Até um exemplar do primeiro disco de Roberto Carlos, um compacto simples (com
as musicas João e Maria/Fora do Tom) gravado no ano de 1959 pela Polidor, ali
se encontra. Os frequentadores da casa podem ouvir o repertório completo de
Roberto Carlos, assim como assistirem vídeos e filmes sobre a vida do artista.
Uma réplica da certidão de nascimento do filho de seu Robertino e dona Laura
Braga, é peça importante no acervo. O estabelecimento já foi motivo de reportagens de emissoras
de televisão, rádios, jornais e outros órgãos da imprensa baiana.
Como não poderia deixar de acontecer, o súdito fareja as
oportunidades de cortejar a sua  majestade. Sendo assim não mede sacrifícios
para assistir aos shows do Rei, ficar, ao vivo e à cores, bem juntinho ao
palco. Isso já ocorreu em três ocasiões. Numa delas o tiete não conteve a
emoção e desmaiou. Em outra , no dia 11 de junho de 2005, em Salvador, teve o
merecimento de adentrar no camarim e ser fotografado ao lado do artista. É o
seu grande trunfo, mostra as tais fotografias a todos que tocam no assunto. O que possibilitou o ingresso no cobiçado camarim foi um
book que Jorge guarda com muito orgulho e que contem valiosas referências sobre
o artista. A produção exibiu o trabalho a Roberto Carlos e este mostrou imediato
interesse em conhecer o xará de Ipiaú.
“O Rei me recebeu com muito carinho e até parece que ficou
meu fã”, garante o cambista ao lembrar dos momentos em que esteve no camarim do
artista. Prosseguindo ele narra: “Após folhear o álbum, Roberto me perguntou
por que eu lhe cortejava assim. Então respondi : é porque Deus criou você prá
cantar e eu lhe admirar”. Roberto Carlos, o fã, afirma que nunca se esquecerá daqueles
momentos de tantas emoções junto ao seu ídolo. Quando trata nesse assunto ele
procura ilustrar  com a frase
principal  de uma das celebres musicas do
do artista. “Essas recordações me matam”. 
(Giro/José Américo Castro)

Personalidades Folclóricas: Charles Lima; a metamorfose ambulante


Dom Quixote de La Mancha e Charles Lima de Ipiaú simbolizam
a presepada universal. Cada qual no seu cada qual. Muda o cenário, mas
permanece o estilo. Geniais em seus delírios. Camaleônico, sempre mudando de
atitudes, porém preservando o essencial do ser, singular e plural, Charles Lima
é uma das mais irreverentes personagens folclóricas dessa surreal cidade baiana.
Pelas ruas, praças, repartições, solenidades, atos públicos, ele “arma o
barraco”, chama a atenção, provoca, argumenta, irrita e chega a afirmar que não
é mesmo deste mundo. Digamos que sempre anda sobre placas tectônicas, tal a
explosividade do seu ser.
No perfil multifacetário de Charles constam momentos de capoeirista,
fotógrafo, detetive político, blogueiro, pastor evangélico e inúmeras outras
manifestações. Ultimamente se apresenta como adepto do judaismo, com direito à longa
barba, talite, quipá e um certo  aspecto
profético. Charles, invariavelmente é alvo de troças, mas ninguém ousa ficar na
sua mira. Nem mesmo  o  vereador e ex-prefeito José Mendonça, cujo comportamento
é bem parecido com o seu, quando o assunto é política. Guardando as devidas
proporções, é claro. Nos períodos de campanha eleitoral, Charles provoca
debates, pirraça adversários, apresenta propostas megalomaníacas e pouco
convence. 
Foi candidato a prefeito, pelo obscuro PGT (Partido Geral dos Trabalhadores), e até colheu alguns votos. Também militou no desconhecido PCO (Partido da Causa Operária), mas, nunca se inibiu em estabelecer alianças com a causa patronal. Serviu, com o mesmo fervor, ao prefeito Deraldino e ao oposicionista José Mendonça. Nesse pula-pula adota uma ética bem sacana: “Sou igual a barata, se não comer eu melo tudo”. Quis ter uma participação mais efetiva na atual campanha eleitoral, entretanto indeferiram sua candidatura a vereador pelo PSD. Esperneou mas acabou aceitando ser cabo eleitoral de José. Vez por outra, Charles ocupa a Tribuna Livre da Câmara Municipal e detona os vereadores, o prefeito, o governador, a rainha da Inglaterra e quem tiver pela frente. É como se fosse uma metralhadora em mãos de macaco. Coisas da democracia provinciana. 
Quando detetive, Charles Lima dizia que estava investigando ações de grupos terroristas estrangeiros contra a segurança nacional. “Eles planejavam a ocupação da Amazônia e a explosão da Usina Hidroelétrica de Itaipu”, revela.  Quando capoeirista aplicou uma rasteira num ex- vereador que acabou fraturando um braço. Em decorrência desse golpe de mestre foi condenado pela Justiça a prestar serviços comunitários. Charles também tem seus momentos de vitima. Garante que planejaram um atentado contra a sua integridade física, mas foi rápido e se livrou da tocaia. O prejuízo ficou no campo material. As balas, supostamente a ele direcionadas, atingiram o velho fusca, equipado com um sistema de sonorização mecânica, com o qual no qual percorria a cidade propagando a sua mensagem quixotesca.  Prestou queixa na Delegacia e o veiculo ficou um tempão enferrujando no pátio do Complexo Policial.
Como pastor evangélico chegou a fundar uma igreja na periferia da cidade, entretanto o templo foi fechado pela ausência de fieis. Ninguém sabe até quando Charles pregará o judaísmo, mas é certo que um dia ele se apresentará de maneira diferente, pois prefere “ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”. – ”O mundo muda e eu mudo também”, conclui o emblemático anti-herói ipiauense. (Giro/José Américo Castro)

Personalidades folclóricas de Ipiaú: Olha aqui o Bananão


Bananão… ô Bananão! A
provocação era como acender o pavio curto de uma bomba potente. A explosão
vinha de imediato numa intensidade de xingamentos, desde o clássico “é a mãe” ao
radical f.d.p. Passava por gestos obscenos, pedradas e chegava ao extremo. O
provocado se despia por inteiro, exibia a semelhança, e gritava: “Olha aqui o
bananão, ó! A correria era inevitável, a
algazarra crescia. Os portões dos colégios, as portas e janelas das residências
se fechavam, a guerra estava deflagrada. De um lado a molecada provocando em
gritos, do outro Nil reagindo com raiva, demonstrando vontade de estraçalhar,
garguelar, desabafar o sentimento do ego ridicularizado. Os que, por
desventura, caiam em suas garras ficavam sabendo da força que continha e do
significado do ditado “o dia da caça”. Às vezes uma crise de epilepsia interrompia
o furor e Anísio Souza Santos, nome pelo qual ninguém o chamava, apesar de ter
sido assim batizado, ficava se contorcendo, protestando em agonia. Refeito, levantava
e continuava sua jornada, caminhando a esmo, aterrorizando os meninos, reagindo
aos insultos, plantando a sua história na cidade.
Alto, desengonçado, sensível,
dotado de infantilidade, Nil (derivado de Anísio) costumava esboçar um sorriso
que era como se estivesse acenando um gesto de paz, uma trégua na batalha cotidiana.
Demorava pouco e logo alguém gritava da esquina: Bananão… ô Bananão! A
batalha recomeçava com mais ferocidade, o emblemático sorriso logo dava lugar à
expressão raivosa. Alvo fácil, o guerreiro insano era encurralado e atingido
por pedradas, pauladas, insultos. Lesionado em seu interior Nil batia em
retirada, chorando, soluçando, jurando vingança.

                                                                                                     

Um dia, outro “doido”, o malhado Juarez,
lhe deu uma surra violenta e se sentiu herói diante dos aplausos dos
estudantes. Pouco tempo depois Nil foi retirado da sua terra natal. Levaram-lhe
para Salvador onde perambulava pelas ruas do bairro de São Caetano, lugar em que
ninguém lhe chamava de “Bananão. A capital tinha seus encantos, mas
também oferecia muitos perigos.  Abestalhado
no meio de tanto carro Nil acabou sendo atropelado e sofreu grave fratura em
uma das pernas. Desde então não mais andou. De volta à Ipiaú, foi recolhido em
uma casa do Bairro da Democracia sob os cuidados da sua tia Valdelice. Há dez
anos viveu entre a cama e a cadeira de rodas, quase não falava, aparentava tranquilidade,
embora em sua expressão sexagenária uma pitada de ironia lembra o gesto que
usava quando lhe chamavam de Bananão e parece dizer: ”ó, ó, ó aqui pra vocês!
Nil morreu em 2013. (Giro/José Américo Castro)

Personalidades Folclóricas de Ipiaú: João Guardinha


Corpo franzino, baixa estatura, uniforme engomado, quepe
vistoso, coldre vazio, posição de sentido. A velha fotografia revela o
personagem nos seus melhores dias. A cena foi registrada nos tempos do fusca,
anos 60, 70 talvez. Ipiaú ainda colhendo os louros da gloria de ter sido
escolhido município Modelo da Bahia. Natural de Santo Antônio de Jesus, João Gomes de Sá, um
sujeito extremamente pacifico, sonhava com a carreira militar e sentiu-se
realizado quando o ex prefeito Juca Muniz, nos idos de 1955, lhe nomeou Guarda
Municipal. Vestiu a farda, vigiou repartições, tornou-se o valente João
Guardinha, calo da meninada, terror da bicharada (jegues, porcos, cachorros) que
invadiam os canteiros do jardim da Praça Rui Barbosa. Qualquer semelhança com o
lendário Soldadinho de Chumbo não é mera coincidência. João entrou em cena como coadjuvante da antiga Filarmônica
Alberto Pinto. Não na posição de músico, mas na condição de carregador da
maleta das partituras. Ia todo compenetrado na rabada da fila, com sua fardinha
de general da banda, patente que lhe foi dada pelo regente Mestre Lôla, seu
padrinho e conterrâneo. 
Sempre de prontidão, batendo continência para a autoridade
mais próxima, foi assim que João sentou praça na Delegacia. Fez papel  de Office Boy, cumprindo mandados, transmitindo
recados, realizando seu sonho de viver na caserna. Vez por outra auxiliava na
carceragem ou acompanhava a guarnição em alguma operação de baixíssimo ou
nenhum risco. Os relevantes serviços prestados à comunidade lhe conduziram ao
Departamento Municipal de Transito. Apito na boca, caneta na mão, moral elevada, o guardinha não
titubeava: aplicava multas, dava broncas que nem sempre eram levadas a sério, solicitava
“particulares”, conversas ao pé do ouvido. Num certo dia intimou o prefeito
Euclides Neto a “um particular”, sobre o pretexto de que o mesmo estava
multado. O celebre escritor e advogado questionou a suposta infração e João
Guardinha mansamente explicou: – Foi nada não doutor, apenas quero que o senhor
me arranje o trocadinho do charuto”. Por mais de 50 anos João Guardinha fumou
charutos que  comprava na venda de Maria
do Fumo, na Rua do Sapo. 
Em toda sua existência de Guarda Municipal, João disparou um
único tiro. Na mira estava um cachorro que lhe atacou em plena via pública. “Desse
episódio ele lembrava com bravura: – Saquei da pistola 22 e detonei”. Depois
concluía conformado: Errei o alvo e o bicho saiu correndo assustado”.

Quando João Guardinha solicitava um particular, o assunto
era sempre “o trocadinho” do charuto. Fatura consumada, sentava na porta da sua
casa, na Rua da Banca, e dava boas baforadas, com pose de coronel reformado.
(Giro/José Américo Castro)

Personalidades Folclóricas de Ipiaú: Joanito; a Máquina


A Maquina Pra Governar Ipiaú”. Com este slogan, adotado na campanha eleitoral de 1982
quando concorreu a prefeito do município, pelo PDS, o jornalista João Rocha
Sales, 88 anos, mais conhecido como “Joanito da Gráfica”, imprimiu, definitivamente,
seu nome no folclóre político da cidade. A máquina a que ele fazia apologia não
era uma locomotiva, como muitos pensam, e sim a velha impressora do memorável
Jornal de Ipiaú, periódico tipográfico que circulava quinzenalmente desde o ano
de 1960.
Dos quatro concorrentes à Prefeitura, naquela eleição (vencida por
Hildebrando Nunes Rezende-PMDB- com 800 votos de frente), Joanito foi o menos
votado. Nem por isso sentiu-se derrotado, ao contrário, caiu nas graças do povo
e cresceu no anedotário regional. Num certo comício em que dividiu palanque com
Waldemar Sampaio e Miguel Coutinho, os dois outros candidatos da oposição, um
cabo eleitoral se prontificou a carregar Miguel em seu cangote. O voluntario se
preparava para a missão honrosa quando Joanito, entendendo ser para ele tamanha
cortesia, pulou na montaria e ergueu os braços saudando a multidão. De outra
vez repetiu o gesto ao avistar um rapaz que se encontrava, de cócoras,
amarrando o cadarço do sapato.
A história de Joanito começa na cidade de Alagoinhas, onde
nasceu. Ainda jovem trabalhou em uma tipografia e se interessou pelo
jornalismo. Ralou muito até editar a sua própria gazeta. Por sua linha
oposicionista “O Nordeste” foi “empastelado”, a mando do chefe político local. Contrariado
com a situação, Joanito mudou-se para o sul da Bahia, estabelecendo-se em Ubatã
onde fundou, em junho de 1958, o “Jornal de Ubatã”, cujo redator era Adauto
Barbalho.

Dois anos depois fundou o Jornal de Ipiaú, cuja tiragem era de mil
exemplares e uma equipe de colunistas do calibre de Euclides Neto, Altino
Cerqueira, Edvaldo Santiago (Tatai) e Protogenes Jaqueira. Campanhas memoráveis,
a exemplo da aquisição da Fundação Hospitalar, construção da arquibancada do
Estádio Pedro Caetano e emancipação política de Ibirataia foram encampadas pelo
Jornal de Ipiaú. Joanito vivia, então, seus melhores dias. Assistiu a Copa do
Mundo, em 1974, na Alemanha, tinha fazenda, gráfica, carrão da moda (a
memorável Veraneio Azul) e outros bens patrimoniais. Frequentava bordeis, rodas
de coronéis, e sonhava com um cargo eletivo.

A palavra “realmente” sempre esteve presente nos
discursos de Joanito. Apesar do grande entusiasmo ele nunca convenceu o
eleitorado, nem mesmo quando candidato a vereador. Perdeu eleições, mas
preservou a esperança. Ainda hoje acredita ser um líder carismático e não
duvida das pesquisas que a cada campanha lhe apontam como o favorito a ganhar o
pleito. Os responsáveis por tais previas eleitorais nem imaginam que essas
brincadeiras o mantém vivo, reacendem sua honra do cidadão participativo. Nessas
ocasiões Joanito é cumprimentado, aplaudido, taxado de “poca-urna”, imbatível. Ilusão
aguçada, máquina lubrificada, ele negocia, propõe conchavos, promete cargos, benfeitorias,
grandes projetos. Imprime sonhos, reedita momentos que nunca existiram, mas
realmente lhe fazem feliz. Abrem-se as urnas: os milhares de votos esperados
não aparecem. Sem perder a pose, argumenta que foi garfado. Pouco importa a derrota,
a luta continua. Na próxima eleição estará mais forte, mais atrevido, mais
Joanito. Com suas pernas compridas percorre a cidade para testar a popularidade
e estimular instintos machistas. Se alguém lhe questiona a idade avançada, a
resposta é repentina: “Galo véi quando perde a espora vai é de bico”. (Giro/José
Américo Castro)

Personalidades Folclóricas de Ipiaú: No tempo de Joé


Ficou proverbial. Quem lhe viu jamais esquecerá o gesto magnífico, o jeito profético, o olhar messiânico direcionado ao infinito do céu azul de Ipiaú. Seguia pela Rua Dois de Julho, depois de calibrar os sentidos com duas talagadas de “temperada” ferrada com jurubeba Leão do Norte. Era a medida exata para cutucar lembranças e despertar a oratória. “Naquele tempo”, discursava com voz tremula, evocando momentos marcantes da sua existência e trazendo fatos importantes da História do Brasil. O povo lhe chamava de Joé. Nasceu em Santa Rita do Rio Preto, perto da cidade da Barra, na região do médio São Francisco. Morou em Lençóis, na Chapada Diamantina, foi garimpeiro, assistiu tiroteios comandados pelo lendário coronel Horácio de Matos, donatário daquela região. Fugiu do barulho, andou centenas de léguas, beirando o Rio das Contas, até chegar em Rio Novo. Lhe disseram que na terra do cacau poderia  ficar rico. Tal sorte não lhe contemplou. Cá também tinha coronéis e jagunços. O cobiçado fruto de ouro estava longe do seu alcance, do mesmo jeito que os reluzentes diamantes. “Naquele tempo…oh naquele tempo”, repetia a frase  em cada parada pela Rua Dois de Julho.
Cambaleante, apurava as vistas por detrás das grossas lentes (fundo de garrafa) dos óculos com aro de tartaruga e seguia em frente. Adiante, na Praça Rui Barbosa, nova parada, repetição dos gestos, instruções no discurso: “Pensai, Recordai, Maginai… Em sua mente vinham flashes do Estado Novo, da CLT( Consolidação das Leis do Trabalho), de golpes militares e resistências democráticas. Buscava lideranças carismáticas: “Getúlio Vargas, ó Getúlio Vargas….Tropeçava, se erguia, exibia um retrato do ditador e emendava: “Aquela Carta” No centro da praça encarava o busto, em bronze, do celebre jurista baiano. Balançava a cabeça e, talvez descobrindo coincidências, trazia o nome do então prefeito: “Dr. Oclides, Dr. Oclides Teixeira Neto!”. Joé era meio acaboclado, de estatura baixa, cabeça chata, tipicamente nordestino. Torcia pelo Independente, apreciava trovadores, se encantava com o circo, divertia-se com os palhaços, afogava as magoas na cachaça. Deu muito duro no garimpo, derrubou matas, foi trabalhador rural, leiteiro, aguadeiro, vendedor de pão e serviçal de recados. Tinha a visão comprometida pela catarata e tudo que desejava era  “um par de óculos para enxergar de perto” e a oportunidade de  voltar à  terra natal.
O dourado do sol poente se espalhava no horizonte, a oeste, em direção ao berço dos cristais, distante ninho dos diamantes. Sua luz refletia além, nas barrancas do São Francisco. O velho garimpeiro já tinha corrido as sete freguesias, derramado torrentes de lagrimas, emborcado o copo da “saideira”. A Voz de Rio Novo, serviço de alto falante da cidade, anunciava a hora da Ave Maria:-Cai a tarde tristonha e serena…-. Antes de se recolher ao quartinho modesto, nos fundos da casa de dona Bijuca, na Rua Floriano Peixoto, Joé apontava para o firmamento e declamava : “Deus, ó Deus, criaste o céu, as estrelas, a lua! Tanta beleza fizeste !”. O sino saudoso da velha igreja “murmurava badaladas” enquanto o errante filosofo ajoelhado  rogava   :”tende piedade deste pobre ébrio”. Joé levantava, enxugava as lágrimas, aprumava os passos e novamente  trazia a clássica recomendação:”Pensai!Recordai! Maginai! 
Naquele tempo Ipiaú era uma cidade pequena e tranquila.( Giro/José Américo Castro)

Personalidade Folclórica de Ipiaú: Tonha Doida, ancestralidade tribalista


Morava sozinha em um casebre na beira do rio das Contas, imediações da praça Salvador da Matta e tinha traços de africana legitima, deve ter vivido 100 anos e  chamavam-lhe de “Tonha Doida”. Invariavelmente usava um torço de pano branco escondendo a carapinha, e resmungava palavras que se referiam  aos tempos do cativo. Coisas que talvez tenha ouvido dos ancestrais vitimas das crueldades da escravidão.Mascava fumo, pitava um tibero e bebia temperada (cachaça com folhas em infusão), cujo efeito lhe fazia gargalhar, ensaiar passos tribais, resmungar e cantarolar em um dialeto desconhecido.
Até o final de década de 1960 e nos primeiros anos da década de 1970 “Tonha” era figura muito popular nessa região da cidade. Apesar de ser  querida por todos, não deixava de ser pirraçada pela molecada. Nos seus momentos de lucidez prestava serviços às famílias das proximidades. Limpava quintais, pilava café, fazia faxinas e em troca ganhava um prato de comida ou mesmo algum dinheiro.
Dentre seus pontos prediletos estava a venda de Jolinda, junto à Padaria de Antonio Morais, pai de Zé Morais. Resgatar a memória de “Tinha Doida” é revisitar Ipiaú em um dos seus períodos mais singelos, quando todos se conheciam e viviam intensamente. O casebre de Tonha se localizava nas proximidades da Pousada Aquarius.(Giro/José Américo Castro)

Personalidades Folclóricas de Ipiaú: Saci em arrotos de valentia e piruetas com a muleta


A condição de folclórico se
revela no apelido adquirido ainda na infância. Tinha apenas seis anos de idade
quando foi vitima de ofidismo e em decorrência disso amputaram a sua perna
esquerda. O veneno da cobra jaracuçu, cabeça de patrona, decerto lhe invadiu a
alma, deixando graves sequelas, dentre elas forte dose de presepada. Tirado a valente,
conversador, encrenqueiro, arruaceiro, mas de boa índole, Saci era assim.  Com sua muleta fazia piruetas, jogava capoeira,
nadava nas enchentes do rio, desafiava brabos e tinha hospedagem garantida no
xadrez da Delegacia de Policia. Muitas vezes, após um apronte no brega dos Dez
Quartos, atravessava a Praça dos Cometas e 
acordava o carcereiro Nezinho gritando: “Abre a porta que lá vai
eu”. 
O bicho pegava quando Saci misturava
maconha com cachaça e bancava o maioral. Tirava uma de tranca rua, dançava o
frevo na frente do trio elétrico, rodopiava a muleta afastando o povo e
roubando a cena dos artistas. Seu exótico figurino variava do tipo fazendeiro, com
chapéu preto de abas largas e fita na cintura, ao estilo militar, com a farda
do Tiro de Guerra que lhe dava semelhança de ex-combatente ou mesmo de guerrilheiro
improvisado. Uma pequena cabaça contendo rapé completava a indumentária. Sonhava
em ser policial e chegou à condição de vigia de prédios públicos.
Sua fama de valente cresceu
quando evitou que o prefeito José Motta Fernandes fosse massacrado em Jequié
durante um jogo de futebol da seleção local com o escrete de Ipiaú, pelo
Campeonato Intermunicipal, nos idos dos anos 60. No meio da briga generalizada
entre as duas torcidas, os agressores recuaram diante dos golpes da sua muleta.
A partir de então Zé Motta ficou lhe devendo favor e retribuiu dando-lhe
atenção e o emprego de segurança. No computo geral Saci apanhava muito mais do
que batia. A sua coragem se resumia em não correr da briga.
Trabalhar sempre foi um forte de
Saci. Na juventude foi aguadeiro e vendedor de areia extraída no leito do Rio
de Contas. Tinha uma tropa de jegues com a qual transportava a areia até os prédios
em construções, contribuindo assim com o desenvolvimento da cidade. Em seu
lazer constavam incursões na zona boemia e na jogatina. No bar, no baralho, nunca
deixava de contar farromba. As presepadas se estendiam em outras façanhas. Uma
vez tomou um banho de sangue de galinha e adentrou num boteco, bradando: “Acabei
de despachar um e tô com vontade de matar outro”. Quem não lhe conhecia entrava
em pânico. De outra feita, no cemitério, apontou para o tumulo de um valentão e
disse: “Esse aqui deu sorte porque quem ia matar ele era eu”.

”Sai de baixo lá vem Saci”. A
meninada corria ao primeiro sinal de alerta, enquanto o homem da muleta cruzava
a rua pronunciando frases delirantes, arrotando valentia, escondendo sua essência
de boa pessoa, traumatizada pelo veneno da cobra, pela amputação da perna.
Nesses momentos devia se lembrar de quando era tão somente o garoto Laudení José
dos Santos, morador de uma roça no município de Dário Meira. (Giro/José Américo
Castro)

Personalidades Folclóricas de Ipiaú: Ripa, o enigmático artista dos barrancos


“A contracultura avançava com suas efervescentes
ramificações, a exemplo do tropicalismo, quando deram por conta, na região de
Ipiaú, da figura exótica de Ripa, um negro octogenário, truculento e
fisicamente saudável que diziam ser louco. Quando bebia umas pingas Ripa aprontava
cenas que atemorizavam as pessoas das cidades onde passava. Nos comentários
sobre os personagens da rua, sua figura é sempre evocada”, as citações são do
escritor e cineasta Lula Martins, em seu livro “Mágicas Mentiras”, e trazem a
lembrança de uma antiga personalidade folclórica da região. Muita gente ainda recorda de Ripa, com seus trajes
ancestrais e um jeito de realeza africana, caminhando pelas ruas de Ipiaú. Metia
medo e ao mesmo tempo fascinava.
Dizem que era tropeiro antes de escolher a vida errante e
mística. Com a primeira função estavam relacionados os gritos que dava ao
cruzar os arruados e veredas. Já o misticismo provem das abstratas figuras pictóricas
que esculpia nos barrancos e pedras que margeavam o antigo traçado da rodovia
Ipiaú-Jequié. Seu instrumento nessa arte era um pedaço de facão.
Primitivo, Ripa dormia em cavernas e nas noites de lua cheia
cantava tiranas junto à uma fogueira. Seu jeito excêntrico chamou a atenção do
cineasta Lula Martins que produziu um documentário de curta metragem tendo como
tema a sua arte e sua vida. Nessa ocasião o cineasta descobriu que o verdadeiro
nome de Ripa era Teotônio Bispo dos Santos e que ele havia dito que nos painéis
que esculpia estavam escritas as palavras de Deus.

Do cartaz do documentário de Lula Martins colhemos a foto de
Ripa. A trilha sonora desse documentário que foi exibido na Jornada de Curta
Metragem da Bahia (produzida por Guido Araújo) é da autoria do famoso percussionista
Djalma Correia. (Giro/José Américo Castro)

Personalidades Folclóricas de Ipiaú: Néia do Tempero


Foi no grito que Jucineia Queiroz dos Santos, a “Néia do
Tempero”, entrou para o seleto clube das personalidades folclóricas de Ipiaú.
“Olha o tempero… olha o tempero freguesa… Assim, há 11 anos, ela merca nas
ruas da cidade o produto que garante a sua sobrevivência e o sustento das três
filhas menores.
O tempero verde (alface, coentro, cebolinha e outras
verduras) vem da Horta Comunitária, é conduzido numa galeota e lhe rende até
R$200,00, de comissão, por semana. A batalha começa às seis horas estendendo-se
durante boa parte do dia. Nessa rotina encontra amigos, incompreensões e
concorrência, sendo esta cada vez maior. O jeito de anunciar a mercadoria não
tardou a ser imitado, mas ninguém conseguiu superar a sua firmeza no grito. : “A
original sou eu”, assegura.

Como tudo começou, ela lembra: “Tava empurrando o carrinho
cheio de tempero e não aparecia comprador. Olhei pros quatro cantos da praça e
gritei forte: olha o tempero freguesa… Quando a garganta dói, a marcadora
cura com chá de romã. “Gargarejo de noite e no outro dia estou boa”. Moradora
da Segunda Travessa Adenor Soares, no Bairro Novo, “Néia do Tempero”, tem um
jeito atrevido de ser. Não leva desaforo pra casa e está sempre com uma
resposta na ponta da língua.

Um dia na Rua da Batateira, um homem reclamou que os gritos
de Néia estavam lhe perturbando o sono. Não tardou a ouvir: – “Tá achando ruim,
então me dá um serviço melhor”. De outra vez a reclamação partiu do prefeito
Deraldino que do alto da sua residência no Bairro da Conceição, bradou: “Êta
mulher zuadenta! Veio o troco: – O senhor reclama aí de cima porque tem tudo
nas mãos, mas eu tenho que buscar meu ganha pão é no grito”. Depois disso o
prefeito ficou freguês da mulher do tempero. É assim no grito que Neia vem ganhando a vida, criando as
filhas, fazendo história. Ao lhe entrevistar perguntei :  Qual é o tempero da vida? E ela, cheia de
sabedoria, respondeu: -O tempero da vida é o Amor. (Giro/José Américo Castro)

Personalidades Folclóricas de Ipiaú: Êpa Êpa


Êpa êpa olha o pão, êpa êpa olha o pão… Assim
ele ia de casa em casa entregando o pão à sua freguesia que garantia o consumo
de 1.500 pães diariamente. O marketing era tão eficaz que substituiu seu
próprio nome. Se perguntassem por Antonio Ferreira da Silva, ninguém em Ipiaú, com
exceção dos seus familiares, saberia dizer quem era. Mas quando se falava em
“Êpa Êpa” toda a cidade garantia ser aquele velhinho que de casa em casa
entregava o pão. Foram 35 anos, vendendo pão. A mercadoria ia num carrinho de
mão.
“Homem
simples e de bom coração, fez parte do cotidiano de muitas famílias, pois todos
conheciam seu chamado, e de maneira ecologicamente correta, todos pegavam suas
vasilhas ou “bornais” para comprar pães devidamente escolhidos por ele”,
recorda um dos seus fregueses. Era natural de Itaquara, gerou muitos filhos que
lhes deram dezenas de netos, bisnetos… Deu anel de formatura a alguns dos seus
descendentes e tinha a honra de dizer que nunca mentiu.
Contava histórias de viagens ao Rio de Janeiro,
Belo Horizonte, Mato Grosso, Salvador, São Paulo, onde visitava filhos e parentes.
”A sua maneira, mostrou-se um homem de fé”. Teve um filho assassinado
barbaramente, sofreu muito por isso, mas não perdeu o ritmo do trabalho que lhe
fez honrado que lhe garantiu lugar seguro na historia de Ipiaú. Morreu aos 95,
deixando boas lembranças.
NOME DE RUA
 

 

Na Sessão Ordinária realizada no dia 28 de junho de 2012
pela Câmara Municipal de Ipiaú, o Plenário aprovou ,em “Acordo de Lideranças”,
o Projeto de Lei nº 058/2012, da autoria do vereador Nena Passos-PSC- que dá o
nome de “Êpa Êpa”, à uma das ruas do Bairro Aloísio Conrado , nesta cidade. Trata-se
de uma justa homenagem e o reconhecimento ao trabalho que um grande homem fez
por Ipiaú. (Giro/José Américo Castro)

Personalidade Folclórica: Astrogildo, o homem do avião


O sonho de Ícaro, imortalizado pela mitologia grega e o
grande feito de Santos Dumont, foram parcialmente reeditados em Ipiaú, no ano
da graça de 1970. O protagonista da fantástica história foi o dublê de mecânico
e protético, Astrogildo Andrade Santos. Ele que se dava ao luxo de inventar
engenhocas que lhe proporcionaram fama e lhe projetaram para a galeria das
personalidades folclóricas da cidade. 
Certa vez decidiu voar, contemplar das altitudes a deslumbrante paisagem
do vale do Rio das Contas, sem se importar com as contas que isso lhe
custaria. Nesse sentido passou a segunda metade dos anos 60, do Século
XX, dividindo seu precioso tempo entre a produção de próteses de dentaduras (tipo
pererecas) e a execução do projeto de uma aeronave. A construção do famoso
helicóptero se deu em uma oficina mecânica que ele havia improvisado em uma
olaria próxima à Rua do Emburrado. A armação era de alumínio e um gerador em
motor contínuo, fato que dispensava os combustíveis convencionais, se convertia
no coração da máquina.
A “astronove”, ou seja, o “avião de Astrogildo” começou a
ser alvo de comentários. O povo acompanhava de perto cada sequência do grande
invento e os ventos levaram a noticia para lugares distantes. “Oropa”, França e
Bahia, o assunto corria mundo. Após gastar o correspondente ao preço de um carro novo,
Astrogildo apresentou a sua invenção no Parque José Thiara. A nave se tornou a
grande atração da Exposição Agropecuária de 1970. O primeiro vôo foi anunciado.
A decolagem seria a partir do areão dos Dez Quartos, à margem do rio das
Contas. Uma multidão compareceu ao local e a engenhoca foi
movimentada, ganhou velocidade e depois parou. Parou por quê? Astrogildo disse que
a Petrobrás, não permitiu. Talvez a empresa estatal temesse a concorrência, já
que a astronave era movida com outro tipo de energia. Frustrava assim o sonho
do nosso Ícaro.
A noticia foi divulgada no jornal A Tarde e, conforme contou
Astrogildo, engenheiros  estrangeiros (americanos,
japoneses),  tentaram  convencê-lo a vender a tecnologia
desenvolvida  na sombria  olaria do Emburrado. Até insistiram para que
o modesto inventor deixasse Ipiaú e ingressasse nas suas equipes
multinacionais. Perderam tempo. O bairrismo falou mais alto e o criativo Astrogildo preferiu
continuar com a missão de fazer dentaduras, garantir sorrisos e mastigações às
bocas banguelas dos seus conterrâneos. O avião permaneceu durante muitos anos no
local onde foi construído. As crianças que moravam nas imediações iam até ele e
pilotavam seus sonhos e fantasias pelos céus da imaginação. (Giro/José Américo
Castro)

Personalidades folclóricas de Ipiaú: A irreverente Maria do Fumo


Com mais de 50 anos de atividades no comercio de Ipiaú, dona
Maria de Lurdes Morais Moreira, 71 anos, se tornou famosa pela comercialização
do produto conhecido como fumo de rolo. Graças a isso ganhou o apelido de “Maria do Fumo”, com o qual passou a ser
identificada e entrou definitivamente no folclore da cidade. Sua história é de
superação e sempre esteve pautada na força do trabalho, mas também encontra na
irreverência um jeito especial de ser. Desbocada, descolada, presepeira, dona Maria propaga : “Eu meto fumo  no povo”.
Pernambucana de São
Bento do Una, Maria do Fumo passou
por muitas dificuldades na vida. Foi retirante da seca, dormiu em baixo de uma
loca, armou arapuca para capturar passarinho e se alimentar, pegou em foice,
machado, estrovenga, labutou de todo o jeito, desde os 10 anos de idade. Do seu
currículo também consta a função de propagandista e vendedora de folhetins da
literatura de cordel.
Foi vendendo, nas feiras livres nordestinas, os romances do
Pavão Misterioso”, “A Filha que Bateu na Mãe e Virou Cachorra”,
A Chegada de Lampião no Inferno”,
dentre outros títulos do gênero, que juntou dinheiro suficiente para adquirir uma
casa, a qual depois trocou por sete toneladas de fumo de rolo. Fretou um caminhão
e transportou a carga até Ipiaú. O povo da zona rural comprava fumo fiado e pagava com lenha
e carvão das matas derrubadas para o plantio de roças de cacau, daí ela dizer
que ajudou a abrir muitas fazendas na região.
Com fibra e coragem,
dona Maria meteu a mão na massa, fez tijolos, telhas, e construiu, nesta
cidade, a sonhada casa própria. Com o correr do tempo o seu ponto de venda, na Rua do Sapo, ganhou dimensão de loja, a
Força Total”, onde se pode
encontrar  uma infinidade de itens
populares. Ervas medicinais, defumadores, pembas, infusões, artesanatos, etc..,
superlotam a prateleiras. Também não falta a sua marca registrada; o famoso fumo
de rolo.
Explicando como mete o fumo no povo, Maria diz:

Meto o fumo no povo, pela venta, pela boca e pela bunda. Pela venta com
o pó de rapé; pela boca com o cigarro e pela bunda como remédio para
hemorróidas
”. 

Personalidades Folclóricas de Ipiaú: Clarice do Mingau


A comerciante Clarice Souza Santos, popularmente conhecida como “Clarice do Mingau”, denominação adquirida em  decorrência da sua tradição de comercializar o nutritivo produto, é uma das personalidades mais queridas de Ipiaú. Diversas gerações reconhecem o seu valor e não são poucas as homenagens que lhe prestaram e continuam prestando. Até a Câmara de Vereadores expressou esse reconhecimento lhe concedendo a “Medalha Altino Cosme Cerqueira”, a mais importante honraria do município.
Trabalho, bondade e honestidade caracterizam a sua história de vida.

Clarisse iniciou sua trajetória comercial, ainda criança, vendendo doces na porta da Escola Celestina Bittencourt. Depois lhe arrumaram um cantinho no Ginásio de Rio Novo, onde passou a vender o mingau (de milho e tapioca) que lhe deu boa fama  e muito contribuiu para que entrasse definitivamente no folclore da cidade. Hoje a sua barraca na Praça Rui Barbosa (a mais central de Ipiaú ) é um referencial de boa acolhida e satisfação para todos que ali chegam. Ponto de encontro dos que acordam cedo, espécie de pronto socorro para os famintos que perambulam na madrugada ipiauense, lugar aconchegante onde “rola bom papo” e tem sempre uma novidade. O espaço também tem a sua história. Um ex-prefeito fanfarrão, sem nenhum conhecimento das tradições ipiauenses tentou excluir a Barraca de Clarice do cenário da praça. A população reagiu de imediato, expurgou o intento, mostrou que ela acumula generosidade e é patrimônio do município.
“E quanta gente a quem ela vendia fiado. Hoje tá de anel no dedo, é doutor é deputado”. É isso mesmo. A frase da canção (Maria do Colégio da Bahia) do genial Tom Zé, expoente do movimento tropicalista, define a relação de Clarice com as celebridades. Empresários, fazendeiros, médicos, advogados, atletas, artistas e políticos, dentre os quais o ex-ministro Waldeck Ornellas, a senadora Lidice da Mata (da qual é amiga e entusiasmada cabo eleitoral), o médico cardiologista Jadelson Andrade e o cantor Luiz Caldas se nutriram com o seu  famoso mingau que também alimenta aos anônimos, os viajantes, os guardas noturnos, os mendigos  e tantos, tantos  outros que um dia passaram pela cidade de Ipiaú ou aqui residem. Todos eles guardam Clarice, esse anjo bom da madrugada,   na mais reconhecida das lembranças. (Giro/José Américo Castro)