Personalidades Folclóricas de Ipiaú: Roberto Carlos, o tiete do rei


Pense num cara fanático pelo famoso cantor Roberto Carlos. Pois
é, em Ipiaú tem um desses. Seu fanatismo é tanto que ele chegou a admitir
trocar de nome pra ficar igualzinho ao do astro que idolatra sem nenhum
acanhamento. Mas não precisou ir tão longe porque o povo providenciou lhe
apelidar do jeito que queria: Roberto Carlos. E o fã vibra quando assim é
chamado. Jorge Lima Alves, 54 anos, dono de um bar e cambista do Jogo
do Bicho, natural desta cidade, mais conhecido como “Roberto Carlos”, tem como
principal motivo da sua existência a tietagem ao celebre artista da MPB. Conhece
toda a trajetória do “Rei”, coleciona os discos, DVDs, recortes de jornais,
enfim tudo que se refere ao ídolo e que está ao seu alcance.
O acervo que ele juntou ao longo do tempo, desde criança, é
exposto em seu estabelecimento comercial denominado de “Detalhes Bar”, na rua Adenor dos Reis Soares, bairro Euclides Neto.
O ambiente é todo decorado com fotos, capas de discos e outras estampas do cantor.
Até um exemplar do primeiro disco de Roberto Carlos, um compacto simples (com
as musicas João e Maria/Fora do Tom) gravado no ano de 1959 pela Polidor, ali
se encontra. Os frequentadores da casa podem ouvir o repertório completo de
Roberto Carlos, assim como assistirem vídeos e filmes sobre a vida do artista.
Uma réplica da certidão de nascimento do filho de seu Robertino e dona Laura
Braga, é peça importante no acervo. O estabelecimento já foi motivo de reportagens de emissoras
de televisão, rádios, jornais e outros órgãos da imprensa baiana.
Como não poderia deixar de acontecer, o súdito fareja as
oportunidades de cortejar a sua  majestade. Sendo assim não mede sacrifícios
para assistir aos shows do Rei, ficar, ao vivo e à cores, bem juntinho ao
palco. Isso já ocorreu em três ocasiões. Numa delas o tiete não conteve a
emoção e desmaiou. Em outra , no dia 11 de junho de 2005, em Salvador, teve o
merecimento de adentrar no camarim e ser fotografado ao lado do artista. É o
seu grande trunfo, mostra as tais fotografias a todos que tocam no assunto. O que possibilitou o ingresso no cobiçado camarim foi um
book que Jorge guarda com muito orgulho e que contem valiosas referências sobre
o artista. A produção exibiu o trabalho a Roberto Carlos e este mostrou imediato
interesse em conhecer o xará de Ipiaú.
“O Rei me recebeu com muito carinho e até parece que ficou
meu fã”, garante o cambista ao lembrar dos momentos em que esteve no camarim do
artista. Prosseguindo ele narra: “Após folhear o álbum, Roberto me perguntou
por que eu lhe cortejava assim. Então respondi : é porque Deus criou você prá
cantar e eu lhe admirar”. Roberto Carlos, o fã, afirma que nunca se esquecerá daqueles
momentos de tantas emoções junto ao seu ídolo. Quando trata nesse assunto ele
procura ilustrar  com a frase
principal  de uma das celebres musicas do
do artista. “Essas recordações me matam”. 
(Giro/José Américo Castro)

Personalidades Folclóricas: Charles Lima; a metamorfose ambulante


Dom Quixote de La Mancha e Charles Lima de Ipiaú simbolizam
a presepada universal. Cada qual no seu cada qual. Muda o cenário, mas
permanece o estilo. Geniais em seus delírios. Camaleônico, sempre mudando de
atitudes, porém preservando o essencial do ser, singular e plural, Charles Lima
é uma das mais irreverentes personagens folclóricas dessa surreal cidade baiana.
Pelas ruas, praças, repartições, solenidades, atos públicos, ele “arma o
barraco”, chama a atenção, provoca, argumenta, irrita e chega a afirmar que não
é mesmo deste mundo. Digamos que sempre anda sobre placas tectônicas, tal a
explosividade do seu ser.
No perfil multifacetário de Charles constam momentos de capoeirista,
fotógrafo, detetive político, blogueiro, pastor evangélico e inúmeras outras
manifestações. Ultimamente se apresenta como adepto do judaismo, com direito à longa
barba, talite, quipá e um certo  aspecto
profético. Charles, invariavelmente é alvo de troças, mas ninguém ousa ficar na
sua mira. Nem mesmo  o  vereador e ex-prefeito José Mendonça, cujo comportamento
é bem parecido com o seu, quando o assunto é política. Guardando as devidas
proporções, é claro. Nos períodos de campanha eleitoral, Charles provoca
debates, pirraça adversários, apresenta propostas megalomaníacas e pouco
convence. 
Foi candidato a prefeito, pelo obscuro PGT (Partido Geral dos Trabalhadores), e até colheu alguns votos. Também militou no desconhecido PCO (Partido da Causa Operária), mas, nunca se inibiu em estabelecer alianças com a causa patronal. Serviu, com o mesmo fervor, ao prefeito Deraldino e ao oposicionista José Mendonça. Nesse pula-pula adota uma ética bem sacana: “Sou igual a barata, se não comer eu melo tudo”. Quis ter uma participação mais efetiva na atual campanha eleitoral, entretanto indeferiram sua candidatura a vereador pelo PSD. Esperneou mas acabou aceitando ser cabo eleitoral de José. Vez por outra, Charles ocupa a Tribuna Livre da Câmara Municipal e detona os vereadores, o prefeito, o governador, a rainha da Inglaterra e quem tiver pela frente. É como se fosse uma metralhadora em mãos de macaco. Coisas da democracia provinciana. 
Quando detetive, Charles Lima dizia que estava investigando ações de grupos terroristas estrangeiros contra a segurança nacional. “Eles planejavam a ocupação da Amazônia e a explosão da Usina Hidroelétrica de Itaipu”, revela.  Quando capoeirista aplicou uma rasteira num ex- vereador que acabou fraturando um braço. Em decorrência desse golpe de mestre foi condenado pela Justiça a prestar serviços comunitários. Charles também tem seus momentos de vitima. Garante que planejaram um atentado contra a sua integridade física, mas foi rápido e se livrou da tocaia. O prejuízo ficou no campo material. As balas, supostamente a ele direcionadas, atingiram o velho fusca, equipado com um sistema de sonorização mecânica, com o qual no qual percorria a cidade propagando a sua mensagem quixotesca.  Prestou queixa na Delegacia e o veiculo ficou um tempão enferrujando no pátio do Complexo Policial.
Como pastor evangélico chegou a fundar uma igreja na periferia da cidade, entretanto o templo foi fechado pela ausência de fieis. Ninguém sabe até quando Charles pregará o judaísmo, mas é certo que um dia ele se apresentará de maneira diferente, pois prefere “ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”. – ”O mundo muda e eu mudo também”, conclui o emblemático anti-herói ipiauense. (Giro/José Américo Castro)

Personalidades folclóricas de Ipiaú: Olha aqui o Bananão


Bananão… ô Bananão! A
provocação era como acender o pavio curto de uma bomba potente. A explosão
vinha de imediato numa intensidade de xingamentos, desde o clássico “é a mãe” ao
radical f.d.p. Passava por gestos obscenos, pedradas e chegava ao extremo. O
provocado se despia por inteiro, exibia a semelhança, e gritava: “Olha aqui o
bananão, ó! A correria era inevitável, a
algazarra crescia. Os portões dos colégios, as portas e janelas das residências
se fechavam, a guerra estava deflagrada. De um lado a molecada provocando em
gritos, do outro Nil reagindo com raiva, demonstrando vontade de estraçalhar,
garguelar, desabafar o sentimento do ego ridicularizado. Os que, por
desventura, caiam em suas garras ficavam sabendo da força que continha e do
significado do ditado “o dia da caça”. Às vezes uma crise de epilepsia interrompia
o furor e Anísio Souza Santos, nome pelo qual ninguém o chamava, apesar de ter
sido assim batizado, ficava se contorcendo, protestando em agonia. Refeito, levantava
e continuava sua jornada, caminhando a esmo, aterrorizando os meninos, reagindo
aos insultos, plantando a sua história na cidade.
Alto, desengonçado, sensível,
dotado de infantilidade, Nil (derivado de Anísio) costumava esboçar um sorriso
que era como se estivesse acenando um gesto de paz, uma trégua na batalha cotidiana.
Demorava pouco e logo alguém gritava da esquina: Bananão… ô Bananão! A
batalha recomeçava com mais ferocidade, o emblemático sorriso logo dava lugar à
expressão raivosa. Alvo fácil, o guerreiro insano era encurralado e atingido
por pedradas, pauladas, insultos. Lesionado em seu interior Nil batia em
retirada, chorando, soluçando, jurando vingança.

                                                                                                     

Um dia, outro “doido”, o malhado Juarez,
lhe deu uma surra violenta e se sentiu herói diante dos aplausos dos
estudantes. Pouco tempo depois Nil foi retirado da sua terra natal. Levaram-lhe
para Salvador onde perambulava pelas ruas do bairro de São Caetano, lugar em que
ninguém lhe chamava de “Bananão. A capital tinha seus encantos, mas
também oferecia muitos perigos.  Abestalhado
no meio de tanto carro Nil acabou sendo atropelado e sofreu grave fratura em
uma das pernas. Desde então não mais andou. De volta à Ipiaú, foi recolhido em
uma casa do Bairro da Democracia sob os cuidados da sua tia Valdelice. Há dez
anos viveu entre a cama e a cadeira de rodas, quase não falava, aparentava tranquilidade,
embora em sua expressão sexagenária uma pitada de ironia lembra o gesto que
usava quando lhe chamavam de Bananão e parece dizer: ”ó, ó, ó aqui pra vocês!
Nil morreu em 2013. (Giro/José Américo Castro)

Personalidades Folclóricas de Ipiaú: João Guardinha


Corpo franzino, baixa estatura, uniforme engomado, quepe
vistoso, coldre vazio, posição de sentido. A velha fotografia revela o
personagem nos seus melhores dias. A cena foi registrada nos tempos do fusca,
anos 60, 70 talvez. Ipiaú ainda colhendo os louros da gloria de ter sido
escolhido município Modelo da Bahia. Natural de Santo Antônio de Jesus, João Gomes de Sá, um
sujeito extremamente pacifico, sonhava com a carreira militar e sentiu-se
realizado quando o ex prefeito Juca Muniz, nos idos de 1955, lhe nomeou Guarda
Municipal. Vestiu a farda, vigiou repartições, tornou-se o valente João
Guardinha, calo da meninada, terror da bicharada (jegues, porcos, cachorros) que
invadiam os canteiros do jardim da Praça Rui Barbosa. Qualquer semelhança com o
lendário Soldadinho de Chumbo não é mera coincidência. João entrou em cena como coadjuvante da antiga Filarmônica
Alberto Pinto. Não na posição de músico, mas na condição de carregador da
maleta das partituras. Ia todo compenetrado na rabada da fila, com sua fardinha
de general da banda, patente que lhe foi dada pelo regente Mestre Lôla, seu
padrinho e conterrâneo. 
Sempre de prontidão, batendo continência para a autoridade
mais próxima, foi assim que João sentou praça na Delegacia. Fez papel  de Office Boy, cumprindo mandados, transmitindo
recados, realizando seu sonho de viver na caserna. Vez por outra auxiliava na
carceragem ou acompanhava a guarnição em alguma operação de baixíssimo ou
nenhum risco. Os relevantes serviços prestados à comunidade lhe conduziram ao
Departamento Municipal de Transito. Apito na boca, caneta na mão, moral elevada, o guardinha não
titubeava: aplicava multas, dava broncas que nem sempre eram levadas a sério, solicitava
“particulares”, conversas ao pé do ouvido. Num certo dia intimou o prefeito
Euclides Neto a “um particular”, sobre o pretexto de que o mesmo estava
multado. O celebre escritor e advogado questionou a suposta infração e João
Guardinha mansamente explicou: – Foi nada não doutor, apenas quero que o senhor
me arranje o trocadinho do charuto”. Por mais de 50 anos João Guardinha fumou
charutos que  comprava na venda de Maria
do Fumo, na Rua do Sapo. 
Em toda sua existência de Guarda Municipal, João disparou um
único tiro. Na mira estava um cachorro que lhe atacou em plena via pública. “Desse
episódio ele lembrava com bravura: – Saquei da pistola 22 e detonei”. Depois
concluía conformado: Errei o alvo e o bicho saiu correndo assustado”.

Quando João Guardinha solicitava um particular, o assunto
era sempre “o trocadinho” do charuto. Fatura consumada, sentava na porta da sua
casa, na Rua da Banca, e dava boas baforadas, com pose de coronel reformado.
(Giro/José Américo Castro)

Personalidades Folclóricas de Ipiaú: Joanito; a Máquina


A Maquina Pra Governar Ipiaú”. Com este slogan, adotado na campanha eleitoral de 1982
quando concorreu a prefeito do município, pelo PDS, o jornalista João Rocha
Sales, 88 anos, mais conhecido como “Joanito da Gráfica”, imprimiu, definitivamente,
seu nome no folclóre político da cidade. A máquina a que ele fazia apologia não
era uma locomotiva, como muitos pensam, e sim a velha impressora do memorável
Jornal de Ipiaú, periódico tipográfico que circulava quinzenalmente desde o ano
de 1960.
Dos quatro concorrentes à Prefeitura, naquela eleição (vencida por
Hildebrando Nunes Rezende-PMDB- com 800 votos de frente), Joanito foi o menos
votado. Nem por isso sentiu-se derrotado, ao contrário, caiu nas graças do povo
e cresceu no anedotário regional. Num certo comício em que dividiu palanque com
Waldemar Sampaio e Miguel Coutinho, os dois outros candidatos da oposição, um
cabo eleitoral se prontificou a carregar Miguel em seu cangote. O voluntario se
preparava para a missão honrosa quando Joanito, entendendo ser para ele tamanha
cortesia, pulou na montaria e ergueu os braços saudando a multidão. De outra
vez repetiu o gesto ao avistar um rapaz que se encontrava, de cócoras,
amarrando o cadarço do sapato.
A história de Joanito começa na cidade de Alagoinhas, onde
nasceu. Ainda jovem trabalhou em uma tipografia e se interessou pelo
jornalismo. Ralou muito até editar a sua própria gazeta. Por sua linha
oposicionista “O Nordeste” foi “empastelado”, a mando do chefe político local. Contrariado
com a situação, Joanito mudou-se para o sul da Bahia, estabelecendo-se em Ubatã
onde fundou, em junho de 1958, o “Jornal de Ubatã”, cujo redator era Adauto
Barbalho.

Dois anos depois fundou o Jornal de Ipiaú, cuja tiragem era de mil
exemplares e uma equipe de colunistas do calibre de Euclides Neto, Altino
Cerqueira, Edvaldo Santiago (Tatai) e Protogenes Jaqueira. Campanhas memoráveis,
a exemplo da aquisição da Fundação Hospitalar, construção da arquibancada do
Estádio Pedro Caetano e emancipação política de Ibirataia foram encampadas pelo
Jornal de Ipiaú. Joanito vivia, então, seus melhores dias. Assistiu a Copa do
Mundo, em 1974, na Alemanha, tinha fazenda, gráfica, carrão da moda (a
memorável Veraneio Azul) e outros bens patrimoniais. Frequentava bordeis, rodas
de coronéis, e sonhava com um cargo eletivo.

A palavra “realmente” sempre esteve presente nos
discursos de Joanito. Apesar do grande entusiasmo ele nunca convenceu o
eleitorado, nem mesmo quando candidato a vereador. Perdeu eleições, mas
preservou a esperança. Ainda hoje acredita ser um líder carismático e não
duvida das pesquisas que a cada campanha lhe apontam como o favorito a ganhar o
pleito. Os responsáveis por tais previas eleitorais nem imaginam que essas
brincadeiras o mantém vivo, reacendem sua honra do cidadão participativo. Nessas
ocasiões Joanito é cumprimentado, aplaudido, taxado de “poca-urna”, imbatível. Ilusão
aguçada, máquina lubrificada, ele negocia, propõe conchavos, promete cargos, benfeitorias,
grandes projetos. Imprime sonhos, reedita momentos que nunca existiram, mas
realmente lhe fazem feliz. Abrem-se as urnas: os milhares de votos esperados
não aparecem. Sem perder a pose, argumenta que foi garfado. Pouco importa a derrota,
a luta continua. Na próxima eleição estará mais forte, mais atrevido, mais
Joanito. Com suas pernas compridas percorre a cidade para testar a popularidade
e estimular instintos machistas. Se alguém lhe questiona a idade avançada, a
resposta é repentina: “Galo véi quando perde a espora vai é de bico”. (Giro/José
Américo Castro)

Personalidades Folclóricas de Ipiaú: No tempo de Joé


Ficou proverbial. Quem lhe viu jamais esquecerá o gesto magnífico, o jeito profético, o olhar messiânico direcionado ao infinito do céu azul de Ipiaú. Seguia pela Rua Dois de Julho, depois de calibrar os sentidos com duas talagadas de “temperada” ferrada com jurubeba Leão do Norte. Era a medida exata para cutucar lembranças e despertar a oratória. “Naquele tempo”, discursava com voz tremula, evocando momentos marcantes da sua existência e trazendo fatos importantes da História do Brasil. O povo lhe chamava de Joé. Nasceu em Santa Rita do Rio Preto, perto da cidade da Barra, na região do médio São Francisco. Morou em Lençóis, na Chapada Diamantina, foi garimpeiro, assistiu tiroteios comandados pelo lendário coronel Horácio de Matos, donatário daquela região. Fugiu do barulho, andou centenas de léguas, beirando o Rio das Contas, até chegar em Rio Novo. Lhe disseram que na terra do cacau poderia  ficar rico. Tal sorte não lhe contemplou. Cá também tinha coronéis e jagunços. O cobiçado fruto de ouro estava longe do seu alcance, do mesmo jeito que os reluzentes diamantes. “Naquele tempo…oh naquele tempo”, repetia a frase  em cada parada pela Rua Dois de Julho.
Cambaleante, apurava as vistas por detrás das grossas lentes (fundo de garrafa) dos óculos com aro de tartaruga e seguia em frente. Adiante, na Praça Rui Barbosa, nova parada, repetição dos gestos, instruções no discurso: “Pensai, Recordai, Maginai… Em sua mente vinham flashes do Estado Novo, da CLT( Consolidação das Leis do Trabalho), de golpes militares e resistências democráticas. Buscava lideranças carismáticas: “Getúlio Vargas, ó Getúlio Vargas….Tropeçava, se erguia, exibia um retrato do ditador e emendava: “Aquela Carta” No centro da praça encarava o busto, em bronze, do celebre jurista baiano. Balançava a cabeça e, talvez descobrindo coincidências, trazia o nome do então prefeito: “Dr. Oclides, Dr. Oclides Teixeira Neto!”. Joé era meio acaboclado, de estatura baixa, cabeça chata, tipicamente nordestino. Torcia pelo Independente, apreciava trovadores, se encantava com o circo, divertia-se com os palhaços, afogava as magoas na cachaça. Deu muito duro no garimpo, derrubou matas, foi trabalhador rural, leiteiro, aguadeiro, vendedor de pão e serviçal de recados. Tinha a visão comprometida pela catarata e tudo que desejava era  “um par de óculos para enxergar de perto” e a oportunidade de  voltar à  terra natal.
O dourado do sol poente se espalhava no horizonte, a oeste, em direção ao berço dos cristais, distante ninho dos diamantes. Sua luz refletia além, nas barrancas do São Francisco. O velho garimpeiro já tinha corrido as sete freguesias, derramado torrentes de lagrimas, emborcado o copo da “saideira”. A Voz de Rio Novo, serviço de alto falante da cidade, anunciava a hora da Ave Maria:-Cai a tarde tristonha e serena…-. Antes de se recolher ao quartinho modesto, nos fundos da casa de dona Bijuca, na Rua Floriano Peixoto, Joé apontava para o firmamento e declamava : “Deus, ó Deus, criaste o céu, as estrelas, a lua! Tanta beleza fizeste !”. O sino saudoso da velha igreja “murmurava badaladas” enquanto o errante filosofo ajoelhado  rogava   :”tende piedade deste pobre ébrio”. Joé levantava, enxugava as lágrimas, aprumava os passos e novamente  trazia a clássica recomendação:”Pensai!Recordai! Maginai! 
Naquele tempo Ipiaú era uma cidade pequena e tranquila.( Giro/José Américo Castro)

Personalidade Folclórica de Ipiaú: Tonha Doida, ancestralidade tribalista


Morava sozinha em um casebre na beira do rio das Contas, imediações da praça Salvador da Matta e tinha traços de africana legitima, deve ter vivido 100 anos e  chamavam-lhe de “Tonha Doida”. Invariavelmente usava um torço de pano branco escondendo a carapinha, e resmungava palavras que se referiam  aos tempos do cativo. Coisas que talvez tenha ouvido dos ancestrais vitimas das crueldades da escravidão.Mascava fumo, pitava um tibero e bebia temperada (cachaça com folhas em infusão), cujo efeito lhe fazia gargalhar, ensaiar passos tribais, resmungar e cantarolar em um dialeto desconhecido.
Até o final de década de 1960 e nos primeiros anos da década de 1970 “Tonha” era figura muito popular nessa região da cidade. Apesar de ser  querida por todos, não deixava de ser pirraçada pela molecada. Nos seus momentos de lucidez prestava serviços às famílias das proximidades. Limpava quintais, pilava café, fazia faxinas e em troca ganhava um prato de comida ou mesmo algum dinheiro.
Dentre seus pontos prediletos estava a venda de Jolinda, junto à Padaria de Antonio Morais, pai de Zé Morais. Resgatar a memória de “Tinha Doida” é revisitar Ipiaú em um dos seus períodos mais singelos, quando todos se conheciam e viviam intensamente. O casebre de Tonha se localizava nas proximidades da Pousada Aquarius.(Giro/José Américo Castro)

Personalidades Folclóricas de Ipiaú: Saci em arrotos de valentia e piruetas com a muleta


A condição de folclórico se
revela no apelido adquirido ainda na infância. Tinha apenas seis anos de idade
quando foi vitima de ofidismo e em decorrência disso amputaram a sua perna
esquerda. O veneno da cobra jaracuçu, cabeça de patrona, decerto lhe invadiu a
alma, deixando graves sequelas, dentre elas forte dose de presepada. Tirado a valente,
conversador, encrenqueiro, arruaceiro, mas de boa índole, Saci era assim.  Com sua muleta fazia piruetas, jogava capoeira,
nadava nas enchentes do rio, desafiava brabos e tinha hospedagem garantida no
xadrez da Delegacia de Policia. Muitas vezes, após um apronte no brega dos Dez
Quartos, atravessava a Praça dos Cometas e 
acordava o carcereiro Nezinho gritando: “Abre a porta que lá vai
eu”. 
O bicho pegava quando Saci misturava
maconha com cachaça e bancava o maioral. Tirava uma de tranca rua, dançava o
frevo na frente do trio elétrico, rodopiava a muleta afastando o povo e
roubando a cena dos artistas. Seu exótico figurino variava do tipo fazendeiro, com
chapéu preto de abas largas e fita na cintura, ao estilo militar, com a farda
do Tiro de Guerra que lhe dava semelhança de ex-combatente ou mesmo de guerrilheiro
improvisado. Uma pequena cabaça contendo rapé completava a indumentária. Sonhava
em ser policial e chegou à condição de vigia de prédios públicos.
Sua fama de valente cresceu
quando evitou que o prefeito José Motta Fernandes fosse massacrado em Jequié
durante um jogo de futebol da seleção local com o escrete de Ipiaú, pelo
Campeonato Intermunicipal, nos idos dos anos 60. No meio da briga generalizada
entre as duas torcidas, os agressores recuaram diante dos golpes da sua muleta.
A partir de então Zé Motta ficou lhe devendo favor e retribuiu dando-lhe
atenção e o emprego de segurança. No computo geral Saci apanhava muito mais do
que batia. A sua coragem se resumia em não correr da briga.
Trabalhar sempre foi um forte de
Saci. Na juventude foi aguadeiro e vendedor de areia extraída no leito do Rio
de Contas. Tinha uma tropa de jegues com a qual transportava a areia até os prédios
em construções, contribuindo assim com o desenvolvimento da cidade. Em seu
lazer constavam incursões na zona boemia e na jogatina. No bar, no baralho, nunca
deixava de contar farromba. As presepadas se estendiam em outras façanhas. Uma
vez tomou um banho de sangue de galinha e adentrou num boteco, bradando: “Acabei
de despachar um e tô com vontade de matar outro”. Quem não lhe conhecia entrava
em pânico. De outra feita, no cemitério, apontou para o tumulo de um valentão e
disse: “Esse aqui deu sorte porque quem ia matar ele era eu”.

”Sai de baixo lá vem Saci”. A
meninada corria ao primeiro sinal de alerta, enquanto o homem da muleta cruzava
a rua pronunciando frases delirantes, arrotando valentia, escondendo sua essência
de boa pessoa, traumatizada pelo veneno da cobra, pela amputação da perna.
Nesses momentos devia se lembrar de quando era tão somente o garoto Laudení José
dos Santos, morador de uma roça no município de Dário Meira. (Giro/José Américo
Castro)

Personalidades Folclóricas de Ipiaú: Ripa, o enigmático artista dos barrancos


“A contracultura avançava com suas efervescentes
ramificações, a exemplo do tropicalismo, quando deram por conta, na região de
Ipiaú, da figura exótica de Ripa, um negro octogenário, truculento e
fisicamente saudável que diziam ser louco. Quando bebia umas pingas Ripa aprontava
cenas que atemorizavam as pessoas das cidades onde passava. Nos comentários
sobre os personagens da rua, sua figura é sempre evocada”, as citações são do
escritor e cineasta Lula Martins, em seu livro “Mágicas Mentiras”, e trazem a
lembrança de uma antiga personalidade folclórica da região. Muita gente ainda recorda de Ripa, com seus trajes
ancestrais e um jeito de realeza africana, caminhando pelas ruas de Ipiaú. Metia
medo e ao mesmo tempo fascinava.
Dizem que era tropeiro antes de escolher a vida errante e
mística. Com a primeira função estavam relacionados os gritos que dava ao
cruzar os arruados e veredas. Já o misticismo provem das abstratas figuras pictóricas
que esculpia nos barrancos e pedras que margeavam o antigo traçado da rodovia
Ipiaú-Jequié. Seu instrumento nessa arte era um pedaço de facão.
Primitivo, Ripa dormia em cavernas e nas noites de lua cheia
cantava tiranas junto à uma fogueira. Seu jeito excêntrico chamou a atenção do
cineasta Lula Martins que produziu um documentário de curta metragem tendo como
tema a sua arte e sua vida. Nessa ocasião o cineasta descobriu que o verdadeiro
nome de Ripa era Teotônio Bispo dos Santos e que ele havia dito que nos painéis
que esculpia estavam escritas as palavras de Deus.

Do cartaz do documentário de Lula Martins colhemos a foto de
Ripa. A trilha sonora desse documentário que foi exibido na Jornada de Curta
Metragem da Bahia (produzida por Guido Araújo) é da autoria do famoso percussionista
Djalma Correia. (Giro/José Américo Castro)

Personalidades Folclóricas de Ipiaú: Néia do Tempero


Foi no grito que Jucineia Queiroz dos Santos, a “Néia do
Tempero”, entrou para o seleto clube das personalidades folclóricas de Ipiaú.
“Olha o tempero… olha o tempero freguesa… Assim, há 11 anos, ela merca nas
ruas da cidade o produto que garante a sua sobrevivência e o sustento das três
filhas menores.
O tempero verde (alface, coentro, cebolinha e outras
verduras) vem da Horta Comunitária, é conduzido numa galeota e lhe rende até
R$200,00, de comissão, por semana. A batalha começa às seis horas estendendo-se
durante boa parte do dia. Nessa rotina encontra amigos, incompreensões e
concorrência, sendo esta cada vez maior. O jeito de anunciar a mercadoria não
tardou a ser imitado, mas ninguém conseguiu superar a sua firmeza no grito. : “A
original sou eu”, assegura.

Como tudo começou, ela lembra: “Tava empurrando o carrinho
cheio de tempero e não aparecia comprador. Olhei pros quatro cantos da praça e
gritei forte: olha o tempero freguesa… Quando a garganta dói, a marcadora
cura com chá de romã. “Gargarejo de noite e no outro dia estou boa”. Moradora
da Segunda Travessa Adenor Soares, no Bairro Novo, “Néia do Tempero”, tem um
jeito atrevido de ser. Não leva desaforo pra casa e está sempre com uma
resposta na ponta da língua.

Um dia na Rua da Batateira, um homem reclamou que os gritos
de Néia estavam lhe perturbando o sono. Não tardou a ouvir: – “Tá achando ruim,
então me dá um serviço melhor”. De outra vez a reclamação partiu do prefeito
Deraldino que do alto da sua residência no Bairro da Conceição, bradou: “Êta
mulher zuadenta! Veio o troco: – O senhor reclama aí de cima porque tem tudo
nas mãos, mas eu tenho que buscar meu ganha pão é no grito”. Depois disso o
prefeito ficou freguês da mulher do tempero. É assim no grito que Neia vem ganhando a vida, criando as
filhas, fazendo história. Ao lhe entrevistar perguntei :  Qual é o tempero da vida? E ela, cheia de
sabedoria, respondeu: -O tempero da vida é o Amor. (Giro/José Américo Castro)

Personalidades Folclóricas de Ipiaú: Êpa Êpa


Êpa êpa olha o pão, êpa êpa olha o pão… Assim
ele ia de casa em casa entregando o pão à sua freguesia que garantia o consumo
de 1.500 pães diariamente. O marketing era tão eficaz que substituiu seu
próprio nome. Se perguntassem por Antonio Ferreira da Silva, ninguém em Ipiaú, com
exceção dos seus familiares, saberia dizer quem era. Mas quando se falava em
“Êpa Êpa” toda a cidade garantia ser aquele velhinho que de casa em casa
entregava o pão. Foram 35 anos, vendendo pão. A mercadoria ia num carrinho de
mão.
“Homem
simples e de bom coração, fez parte do cotidiano de muitas famílias, pois todos
conheciam seu chamado, e de maneira ecologicamente correta, todos pegavam suas
vasilhas ou “bornais” para comprar pães devidamente escolhidos por ele”,
recorda um dos seus fregueses. Era natural de Itaquara, gerou muitos filhos que
lhes deram dezenas de netos, bisnetos… Deu anel de formatura a alguns dos seus
descendentes e tinha a honra de dizer que nunca mentiu.
Contava histórias de viagens ao Rio de Janeiro,
Belo Horizonte, Mato Grosso, Salvador, São Paulo, onde visitava filhos e parentes.
”A sua maneira, mostrou-se um homem de fé”. Teve um filho assassinado
barbaramente, sofreu muito por isso, mas não perdeu o ritmo do trabalho que lhe
fez honrado que lhe garantiu lugar seguro na historia de Ipiaú. Morreu aos 95,
deixando boas lembranças.
NOME DE RUA
 

 

Na Sessão Ordinária realizada no dia 28 de junho de 2012
pela Câmara Municipal de Ipiaú, o Plenário aprovou ,em “Acordo de Lideranças”,
o Projeto de Lei nº 058/2012, da autoria do vereador Nena Passos-PSC- que dá o
nome de “Êpa Êpa”, à uma das ruas do Bairro Aloísio Conrado , nesta cidade. Trata-se
de uma justa homenagem e o reconhecimento ao trabalho que um grande homem fez
por Ipiaú. (Giro/José Américo Castro)

Personalidade Folclórica: Astrogildo, o homem do avião


O sonho de Ícaro, imortalizado pela mitologia grega e o
grande feito de Santos Dumont, foram parcialmente reeditados em Ipiaú, no ano
da graça de 1970. O protagonista da fantástica história foi o dublê de mecânico
e protético, Astrogildo Andrade Santos. Ele que se dava ao luxo de inventar
engenhocas que lhe proporcionaram fama e lhe projetaram para a galeria das
personalidades folclóricas da cidade. 
Certa vez decidiu voar, contemplar das altitudes a deslumbrante paisagem
do vale do Rio das Contas, sem se importar com as contas que isso lhe
custaria. Nesse sentido passou a segunda metade dos anos 60, do Século
XX, dividindo seu precioso tempo entre a produção de próteses de dentaduras (tipo
pererecas) e a execução do projeto de uma aeronave. A construção do famoso
helicóptero se deu em uma oficina mecânica que ele havia improvisado em uma
olaria próxima à Rua do Emburrado. A armação era de alumínio e um gerador em
motor contínuo, fato que dispensava os combustíveis convencionais, se convertia
no coração da máquina.
A “astronove”, ou seja, o “avião de Astrogildo” começou a
ser alvo de comentários. O povo acompanhava de perto cada sequência do grande
invento e os ventos levaram a noticia para lugares distantes. “Oropa”, França e
Bahia, o assunto corria mundo. Após gastar o correspondente ao preço de um carro novo,
Astrogildo apresentou a sua invenção no Parque José Thiara. A nave se tornou a
grande atração da Exposição Agropecuária de 1970. O primeiro vôo foi anunciado.
A decolagem seria a partir do areão dos Dez Quartos, à margem do rio das
Contas. Uma multidão compareceu ao local e a engenhoca foi
movimentada, ganhou velocidade e depois parou. Parou por quê? Astrogildo disse que
a Petrobrás, não permitiu. Talvez a empresa estatal temesse a concorrência, já
que a astronave era movida com outro tipo de energia. Frustrava assim o sonho
do nosso Ícaro.
A noticia foi divulgada no jornal A Tarde e, conforme contou
Astrogildo, engenheiros  estrangeiros (americanos,
japoneses),  tentaram  convencê-lo a vender a tecnologia
desenvolvida  na sombria  olaria do Emburrado. Até insistiram para que
o modesto inventor deixasse Ipiaú e ingressasse nas suas equipes
multinacionais. Perderam tempo. O bairrismo falou mais alto e o criativo Astrogildo preferiu
continuar com a missão de fazer dentaduras, garantir sorrisos e mastigações às
bocas banguelas dos seus conterrâneos. O avião permaneceu durante muitos anos no
local onde foi construído. As crianças que moravam nas imediações iam até ele e
pilotavam seus sonhos e fantasias pelos céus da imaginação. (Giro/José Américo
Castro)

Personalidades folclóricas de Ipiaú: A irreverente Maria do Fumo


Com mais de 50 anos de atividades no comercio de Ipiaú, dona
Maria de Lurdes Morais Moreira, 71 anos, se tornou famosa pela comercialização
do produto conhecido como fumo de rolo. Graças a isso ganhou o apelido de “Maria do Fumo”, com o qual passou a ser
identificada e entrou definitivamente no folclore da cidade. Sua história é de
superação e sempre esteve pautada na força do trabalho, mas também encontra na
irreverência um jeito especial de ser. Desbocada, descolada, presepeira, dona Maria propaga : “Eu meto fumo  no povo”.
Pernambucana de São
Bento do Una, Maria do Fumo passou
por muitas dificuldades na vida. Foi retirante da seca, dormiu em baixo de uma
loca, armou arapuca para capturar passarinho e se alimentar, pegou em foice,
machado, estrovenga, labutou de todo o jeito, desde os 10 anos de idade. Do seu
currículo também consta a função de propagandista e vendedora de folhetins da
literatura de cordel.
Foi vendendo, nas feiras livres nordestinas, os romances do
Pavão Misterioso”, “A Filha que Bateu na Mãe e Virou Cachorra”,
A Chegada de Lampião no Inferno”,
dentre outros títulos do gênero, que juntou dinheiro suficiente para adquirir uma
casa, a qual depois trocou por sete toneladas de fumo de rolo. Fretou um caminhão
e transportou a carga até Ipiaú. O povo da zona rural comprava fumo fiado e pagava com lenha
e carvão das matas derrubadas para o plantio de roças de cacau, daí ela dizer
que ajudou a abrir muitas fazendas na região.
Com fibra e coragem,
dona Maria meteu a mão na massa, fez tijolos, telhas, e construiu, nesta
cidade, a sonhada casa própria. Com o correr do tempo o seu ponto de venda, na Rua do Sapo, ganhou dimensão de loja, a
Força Total”, onde se pode
encontrar  uma infinidade de itens
populares. Ervas medicinais, defumadores, pembas, infusões, artesanatos, etc..,
superlotam a prateleiras. Também não falta a sua marca registrada; o famoso fumo
de rolo.
Explicando como mete o fumo no povo, Maria diz:

Meto o fumo no povo, pela venta, pela boca e pela bunda. Pela venta com
o pó de rapé; pela boca com o cigarro e pela bunda como remédio para
hemorróidas
”. 

Personalidades Folclóricas de Ipiaú: Clarice do Mingau


A comerciante Clarice Souza Santos, popularmente conhecida como “Clarice do Mingau”, denominação adquirida em  decorrência da sua tradição de comercializar o nutritivo produto, é uma das personalidades mais queridas de Ipiaú. Diversas gerações reconhecem o seu valor e não são poucas as homenagens que lhe prestaram e continuam prestando. Até a Câmara de Vereadores expressou esse reconhecimento lhe concedendo a “Medalha Altino Cosme Cerqueira”, a mais importante honraria do município.
Trabalho, bondade e honestidade caracterizam a sua história de vida.

Clarisse iniciou sua trajetória comercial, ainda criança, vendendo doces na porta da Escola Celestina Bittencourt. Depois lhe arrumaram um cantinho no Ginásio de Rio Novo, onde passou a vender o mingau (de milho e tapioca) que lhe deu boa fama  e muito contribuiu para que entrasse definitivamente no folclore da cidade. Hoje a sua barraca na Praça Rui Barbosa (a mais central de Ipiaú ) é um referencial de boa acolhida e satisfação para todos que ali chegam. Ponto de encontro dos que acordam cedo, espécie de pronto socorro para os famintos que perambulam na madrugada ipiauense, lugar aconchegante onde “rola bom papo” e tem sempre uma novidade. O espaço também tem a sua história. Um ex-prefeito fanfarrão, sem nenhum conhecimento das tradições ipiauenses tentou excluir a Barraca de Clarice do cenário da praça. A população reagiu de imediato, expurgou o intento, mostrou que ela acumula generosidade e é patrimônio do município.
“E quanta gente a quem ela vendia fiado. Hoje tá de anel no dedo, é doutor é deputado”. É isso mesmo. A frase da canção (Maria do Colégio da Bahia) do genial Tom Zé, expoente do movimento tropicalista, define a relação de Clarice com as celebridades. Empresários, fazendeiros, médicos, advogados, atletas, artistas e políticos, dentre os quais o ex-ministro Waldeck Ornellas, a senadora Lidice da Mata (da qual é amiga e entusiasmada cabo eleitoral), o médico cardiologista Jadelson Andrade e o cantor Luiz Caldas se nutriram com o seu  famoso mingau que também alimenta aos anônimos, os viajantes, os guardas noturnos, os mendigos  e tantos, tantos  outros que um dia passaram pela cidade de Ipiaú ou aqui residem. Todos eles guardam Clarice, esse anjo bom da madrugada,   na mais reconhecida das lembranças. (Giro/José Américo Castro)