Ipiaú: Seu Acácio chega a um século de vida


Por José Américo Castro/Giro em Ipiaú

Lúcido e saudável aos cem anos de idade. (Foto:Giro em Ipiaú)
Mergulhar na memória, trazer à tona lembranças que testemunham
façanhas, momentos distantes, história. “Passei por essas plácidas colinas e
vi, das nuvens, silencioso o gado pascer nas solidões esmeraldinas. /Largos
rios de corpo sossegado dormiam sobre a tarde imensamente, – e eram sonhos sem
fim, de cada lado”. Bem cabem os versos de Cecília Meireles na narrativa dos
100 anos de vida do nosso entrevistado. Lúcido, ele se lembra de tudo e nos
conta detalhes dessa longevidade. Mostra que ainda está esperto, brinca,
aconselha, agradece. Louva a quem bem merece. Vestígios da famosa enchente de
14 se estendiam por todo o Vale do Rio de Contas quando no dia 8 de maio, do
ano da graça de 1915, nascia em uma fazenda da região da Canoa Virada, próxima
ao local onde descobriram uma grande jazida de níquel, o segundo dos oito
filhos do casal Domingos Antonio Mendes e Maria Sales Mendes. O menino recebeu
o nome de Acácio, (palavra que significa sem maldade). Ele cresceu saudável,
conheceu a força do trabalho, honrou pai e mãe e foi honrado pelos filhos e
todos que lhe conhecem. Assim continua. Nesta sexta-feira, 8 de maio de
2015,  Acácio Sales Mendes chega a um
século de existência, pacifica e repleta de boa vontade. Sua descendência já envolve
41 pessoas. Amigos e parente estão mobilizados pra festejar o aniversário. O patriarca
merece.  Na entrevista, alguns detalhes
que fizeram essa história.

Seu Acácio, muitas lembranças, um mergulho na memória de Ipiaú.(Foto:Giro em Ipiaú)
O que o senhor guarda
na memória, em um século de existência
?
-Tanta coisa, tanta lembrança, muitas recordações, lições da
vida, amigos, pessoas queridas, alegrias. Dos 10 anos de idade em diante me
lembro de quase tudo.  Em um período de oito
meses, aprendi a ler e escrever. Meu professor se chamava Guilhermino e era um
homem muito inteligente. Ele tinha estudado pra ser padre, falava cinco línguas,
mas desistiu da batina porque resolveu se casar. A escola era na roça, onde
também aprendi a trabalhar. Com a idade de 11 anos já quebrava cacau que enchia
10 caixas por dia. Quando fiquei rapaz cabruquei muita mata pra plantar cacau, fazer
o roçado de milho, mandioca, feijão.
E as diversões?
– Caçar, pescar, mergulhar no rio. Uma vez desafiei um primo
meu pra ver quem comia mais jaca. No final da disputa eu tinha engolido 220
bagos e ele 400. As brincadeiras eram assim (risos).
Como se chamavam seus
irmãos
?
– Hermógenes, o mais velho, Cecília, Júlio, Domingos, Maria,
Edite e Lidia. Dessa turma só tem eu vivo.
Quantos filhos o
senhor teve
?
Minha mulher, Almerinda, teve c inco: Almira, Áurea, Álvaro,
Almir e Alírio. Eles me deram 17 netos e 19 bisnetos.
Isso não foi uma
resposta e sim uma pegadinha. O senhor tá esperto mesmo
!
-Pois é (risos).
Quando o senhor tinha
15 anos de idade estourou a Revolução de 1930. O que se lembra disso
?
-Passava pela fazenda de meu pai muitos soldados, em todo
tipo de montaria. Estavam perseguindo os jagunços e seus chefes. Tinham vários
grupos de jagunços, uns usando lenços vermelhos no pescoço, outros lenços pretos.
De vez em quando davam fogo, chegavam a invadir o arraial, onde hoje é Ipiaú. A
turma de Tranquilino, da Gruta Baiana, trocava tiro com o povo de Silvino do
Curral Novo, de Jequié. Eles andavam por toda essa região.
E como era esse
arraial
?
-No local onde hoje é o jardim (Praça Rui Barbosa) tinha a
casa de Zé Miraglia, uma lagoa e muito pé de jenipapo. Mais pra baixo estava a
padaria de Aristóteles Andrade, o armazém de Zé Maron, o Mercado de Farinha, a
casa de Domingos Castro. Onde hoje é a Rua Nações Unidas (antiga Rua da
Quarana) tinha o alambique de Manoel dos Anjos, pai de Nelson Almeida. Existiam
poucas casas. A estrada em direção à Ibirataia, beirava o rio Agua Branca, por
ali onde é hoje a Avenida Contorno. Quase tudo era mata, com muita capivara, jacaré
e outros bichos. Mais tarde o prefeito Juca Muniz abriu a Rua Juracy Magalhães
e a Rua do Cacau.
O senhor foi
integralista
?
-Por influência, mais pela diversão. Gostava de ficar no
meio daquela turma de moças e rapazes. Vestia a camisa verde, usava o sigma e
saudava o povo com a palavra anauê. Isso continuou até o dia em que
Dominguinhos Castro, na época delegado de policia de Rio Novo (nome antigo de
Ipiaú), cumprindo ordens do governador Juracy Magalhães, mandou tirar as
camisas de todo mundo. O chefe dos integralistas daqui era Durvalzinho
Hohllenwerger  que tinha fazenda na Alta
Mira e o prefeito se chamava Leonel Andrade. Lembro também que uma vez Plínio
Salgado chegou por aqui e fez uma palestra que durou duas horas de relógio, no
cinema de Zé Miraglia (Cine Eden). No outro dia Dr. Salvador da Matta, foi até
a Voz de Rio Novo, o serviço de alto falante de  Moacir Carvalho, desfazer um bocado de coisa
que Plínio Salgado tinha dito.
Com o bisneto Afonso e a filha Almira. (Foto:Giro em Ipiaú)
Quando foi que o
senhor deixou a roça para morar em Ipiaú?
-Quando houve a necessidade de botar meus filhos para
estudar. Comprei um terreno de seu Dominguinhos Castro e construir uma casa na
rua que hoje é chamada de São Roque. Foi um a das três primeiras casas dessa
rua. Começamos a morar nela em 1953 e estamos aqui até hoje.
Fale do seu ingresso
na Igreja Adventista
.
-Comecei a frequentar no ano de 1958 quando aconteceu um congresso
aqui em Ipiaú. Em 1964 fui batizado pelo pastor Modesto Marques.
E a sua atual rotina?
-Acordo às 5 horas e durmo lá prá meia noite. Vou dormir
nesse horário porque gosto de ficar ouvindo músicas e pregações evangélicas, no
rádio e na televisão. Não faço distinção da religião, sendo evangélica (Adventista,
Batista, Pentecostal) eu ouço o sermão, pois sei que estão com a palavra de
Deus que uma só…  A verdade.
Como está a saúde?
-Está boa. O peso da idade torna os passos mais lentos, as
vistas embaçadas e a mastigação difícil. Apesar de tudo , estou vivo. Meu pai
morreu com 95 anos e eu cheguei aos 100, um século. Passei da idade dele. Vivo
em paz, não tenho inimigos, nunca tive inimigo.
Qual o seu conselho
para a juventude
?
-Que busque viver em paz e se alimentar direito. Deixar de
comer hambúrguer, alimentos que contenham conservantes químicos, pois tudo isso
é veneno. A alimentação de hoje é muito complicada. Quase tudo tem química, da
verdura à carne.  Até na água. Esse tipo
de alimentação diminui o tempo de vida de qualquer um. Comer fora do horário
também prejudica.  Eu comia do que eu
mesmo plantava. Tudo natural. Carne de boi só nos tempos de festa, Natal, Ano
Novo. Tinha muita caça, paca, tatu, macuco, capivara, muito peixe no rio, tudo
limpo, saboroso e no horário certo.
Deixe uma mensagem aos que celebram o centenário do seu nascimento.
-Primeiro quero
agradecer a Deus por uma vida tão longa. Faço votos que todos tenham felicidade,
que vivam em paz. 
“Eis a estrada, eis a
ponte, eis a montanha sobre a qual se recorta a igreja branca. /Eis o cavalo
pela verde encosta. Eis a soleira, o pátio e a mesma porta. E a direção do
olhar. E o espaço antigo para a forma do gesto e do vestido. E o lugar da
esperança. E a fonte” . (Giro/José Américo Castro.